sábado, 9 de agosto de 2014

PANE NA NATUREZA

     Sentada, na expectativa da agulhada. Aquela agulha tão fina, entrando pela veia, retirando meu sangue... não acostumo com isso.
     A funcionária do laboratório percebeu o nervosismo e desatou a falar. Começamos pela seca em São Paulo, a grande ameaça da falta d'água!
     Quando me casei e adentrei pelos milagres das receitas culinárias, sempre afirmava que poderia viver sem luz, sem gás... mas sem água, seria impossível! De vez em vez, o porteiro nos avisava que iam racioná-la, então, eu me desesperava! Era um tal de encher baldes, vasilhas, banheira... Era um Deus nos acuda!...
     Agora, a ameaça é maior. Bem maior. Uma cidade inteira como São Paulo, sem água? Impossível acreditar.
     O assunto foi adiante;  a mulher arregalava os olhos, limpava o pouco sangue que ainda saía do meu braço e narrava: noutro dia, podou uma mangueira do seu terreno__os galhos estavam entrando no quintal do vizinho, explicou. Depois desse ato inocente, causou uma pane na natureza: muitos percevejos entraram em sua casa, passarinhos desabrigados  procuraram seus ninhos. E ela chegou a chorar, contou, já meio atordoada, revivendo o fato pela lembrança.
     E por aí foi descrevendo a atitude da natureza que nos oferta, nos consola, nos abriga, mas, também, se revolta e nos pune... Entusiasmada, relacionou com textos bíblicos e tive que tomar a iniciativa para sair, burlando o seu domínio discursivo...
     Talvez nós, pessoas comuns, ainda não tenhamos percebido a totalidade do avassalador impulso do homem cruel, ávido por lucro, por dinheiro. As matas sendo destruídas para construções, rios sendo mortos, sem nenhum constrangimento.
     Muitas pesquisas e recentes estudos mostram, por outro lado, que a humanidade está despertando e se unindo em prol do planeta, nossa casa Terra. Imperioso é que nos debrucemos sobre  qual a melhor  atitude no dia a dia, a pequena ação que interferirá ao final. Todos se unindo __ empresários, governo e o cidadão para que haja uma revolução de ideias e de ideais, com o foco na saúde do planeta, este ser vivo, palpitante. Afinal, dependemos dele, é a nossa casa que, generosa, tudo nos oferece para que tenhamos  vida de qualidade. E nós a maltratamos tanto?
     Desde a infância já é bom que comecemos a semear noções de amor à mãe-natureza. A leitura oportuna e as conversas serão bem-vindas.


TOQUES DE OUTONO

Os espíritos da natureza
Se manifestam na brisa que sussurra,
No vento que surge,
Cobiçando os verdes apaziguadores.

Pássaros atiçados
Voam assustadiços,
Gritam alvoroçados.
Somente o riacho continua, em sua rota inalterável,
Invadindo a floresta que, mesmo em silêncio, ruge.
Suculentos frutos
Debruçam-se nos galhos dadivosos
Do garboso jambeiro.
Os perfumes acentuam-se.

Na mata, a criação conspira.

    


    
    
    
    
    

sábado, 2 de agosto de 2014

"_LEVANTE O SOUTIEN!"

  
    "É neste que eu vou", decidiu, animada, quando procurava um cardiologista na lista do plano de saúde, pois o nome dele coincidia com o do seu pai e não era um nome comum. Este foi o critério.
     Tudo ia bem nas primeiras consultas, até que o médico revelou-se como pessoa. E aí foi um desastre...
     A taxa do colesterol dera alta; e ele , à guisa de que ela aceitasse o medicamento indicado, que produz diversos efeitos colaterais, tornou-se irritadiço, inconsequente, grosseiro.
     Alteou a voz , com o dedo em riste e direcionou-a para a pequena saleta onde realizaria um exame preliminar. Mandou-a deitar-se e levantar o soutien num tom agressivo, já que ela titubeava, pois a peça não era flexível, ela queria abrir atrás, mas ele mesmo, com o autoritarismo acirrado, puxou-o para cima , deixando-a numa situação constrangedora.  
     Após o exame, em passos largos e firmes, dirigiu-se para a sua cadeira e, em tom agressivo, disparou:
     "_ Venha pra cá!" , tendo ouvido como resposta, em voz tíbia e delicada:
     "__Um momento, doutor, estou me compondo."      
     A tremenda escassez de gentileza gerava palpitações na paciente. Não se preparara para tal encontro. Acreditava que ele era um bom médico. Ora, ora, mas o que é ser um bom médico? Talvez saber ouvir, saber diagnosticar, saber prescrever a droga correta e, antes de tudo, ter o entendimento que aquela pessoa, à sua frente, está carente de cuidados.
     Mas, por certo, às vezes, o médico está numa situação tão deplorável de valores, de compreensão, de empatia que não perceberá detalhes do ser humano. Mecanizou-se, tornou-se um robô para aviamento de receitas.
     Ao sentar-se, a paciente ouviu, repetidas vezes, que deveria usar a tal medicação, pois ela era já quase uma sucata!...
     "_ Como, doutor? Acho que não escutei direito...", falou, meio aturdida com o que ouvira. E ele repetiu, bombasticamente, com a empáfia de um pobre doutor...
     Depois, bramiu, entusiasmado, porque ela dissera " _Ai, meu Deus!",  que não acreditava em Deus, que  não acreditava em absolutamente nada, com a pose de quem faz uma afirmação muito perspicaz e inteligente.
      Bem, "agora, tudo está claro para mim", pensou ela.   Sentiu mais por ele do que por si, já que, alguém que não tenha encontrado seu próprio templo de quietude , está permitindo a agitação e o desvario, longe da paz e da força divinas.
     À porta, ele sorriu um tanto sarcástico e, à meia voz, pediu-lhe desculpas...
     Ela saiu dali meio trôpega, claudicante, pediu um copo d'água à secretária e, depois de assinar o recibo do Plano, desejou ali nunca mais voltar.
     Programou-se para caminhadas e segue uma dieta, nem tão rígida, de uma boa nutricionista. A meditação diária entrou no rol das novas atitudes e, de acordo com os últimos exames, a taxa do colesterol vai muito bem, obrigada!



 Ah, doutor impaciente,
que lança palavras mortas,
que planta dissabor...
Ah, doutor!...
Tão belo homem,
imponente...
Mas quebram o encanto da tua presença
a  língua indiferente, 
ferina, tonta
e o coração ausente...
Ah, doutor,
a Poesia se faz urgente!
Não lamentes a paciente que se foi...
Doravante, sê prudente!...







sexta-feira, 30 de maio de 2014

MUITO ANTES DO SEXO

     Minha amiga, ultimamente, tem vivido experiências inusitadas. Outro dia, o vizinho a  convidou   para uma caminhada em trilha radical, no interior de Minas e que, de repente,  assegura, em  rede    social, que  o seu desejo mesmo é que ela passe a noite na tal cidade! Cheio de desejos escusos...
    Chateada, minha amiga a mim confessa suas decepções com o ser humano. Principalmente com os do sexo oposto. Diz ela que gostaria de conhecer um homem de verdade, com atitude forte, destemida, de mente desenvolvida, fala sincera.
     Pessoa simples, instruída, afeita ao burburinho dos movimentos ecológicos e a todos os que pretendem sustentar a Vida, ela é, decididamente, otimista e crédula. E isto, nos dias de hoje, talvez seja um defeito, digamos assim.
     Hoje, contou-me ao chegar da caminhada pela    orla,   que ela ama fazer diariamente, que    um   daqueles vendedores que esparramam seus badulaques no calçadão   ,   abordou-a com a maior intimidade e comentou em alta voz com o colega ao lado que 'a vovó tá  super estilosa, aeh...' Bastou isto para que fervesse o seu sangue italiano! Continuou à frente, mas sua mente ficou lá, presa ao ambulante. E ele continuou: ' tá com frio a vovó...' , já que vestia um agasalho colorido, por cima de uma blusa de gola alta, contou-me.
     Pronto! Bastou repetir a palavrinha mágica duas vezes assim, seguidamente, para que  ela se voltasse e, sem nenhum bom senso que a caracteriza, dissesse: '  _Vovó é o escambau!'
     Telefona-me e pergunta, meio aflita, sorrindo, o porquê desta reação. '_Não ligue', balbuciei, rindo. Tanta garota passando e ele foi notar você, não é? Coisas que acontecem.
     No fundo, no fundo, aquelas estórias de príncipe que se apaixona pela princesa ainda resistem no subconsciente de algumas mulheres. Elas até  lutam no seu íntimo para ter uma postura firme, inteligente e madura. Mas o sentimento do amor que induz à visão do aconchego e da ternura_ muito antes do sexo consumado , prevalece.
     Minha amiga confessou-me que, de agora em diante, jura que lidará com estas questões desatenta e superficialmente. Há muitos outros interesses que absorvem a sua concentração. E estes, sim, darão vida e significado à sua existência já tão rica e envolvente.
     A prova disso é o netinho que a espera nas próximas férias escolares e que, todos os dias, clama ao telefone, com sua vozinha meiga: '_ Vó, te amo!...' 
    
   

terça-feira, 22 de abril de 2014

ESTRATÉGIA

  Arrumo os livros de poesia estrategicamente, de modo que os possa folhear, de vez em vez, assim que a alma, silenciosa, exige.
     Seja pelos apelos do mundo turbulento em que vivemos, seja pelo noticiário quase sempre sombrio, o fato é que a Arte, de um modo geral, nos liberta. Ela nos eleva, nos coloca em outra dimensão, nos toca o coração e nos torna felizes, cumprindo o seu papel.

"...
O sol é grande. Ó coisas
Todas vãs, todas mudaves!
(Como esse 'mudaves',
Que hoje é 'mudáveis
E já não rima com 'aves'.)
..."

     Alguns pequenos livros deixo-os perto de mim, sobre a mesa de estudo, onde passo a maior parte do meu tempo, tão valioso quanto a minha própria vida.
     Outros, coloco-os em pilhas, na estante de madeira que fica logo acima do computador. E fico rodeada por Fernando Sergio Lyra com os seus belos haicais, o pantaneiro Manoel, o sulista Quintana, o tristonho Bandeira, que fez da sua tristeza motivo para enredar-se em versos tão deliciosamente arquitetados, além dos poetas chineses.
     Acompanham-me, desde a mocidade, Tagore com a sua profunda reverência à divindade, Castro Alves, o poeta abolicionista por excelência e Cecília , a poetisa mais lírica.
     Destaques na minha caminhada e para sempre no coração, já que suas revelações expostas em versos sensíveis, cheios de ternura e inteligência recheiam o meu espírito de beleza e esperanças.

" Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
..."
      
      No lado esquerdo da mesinha, uma pintura para finalizar ali está, exposta, como a chamar-me. Pincéis  num pote japonês, de bambu, com um desenho ilustrativo aguardam o manuseio.
     Porém, ultimamente, são as poesias que me atraem mais pela praticidade, talvez. E quando brota a inspiração, lápis e canetas espalhados  e cadernos e blocos se dispõem a colaborar comigo. Tudo ali, à mostra, bem fácil de ser explorado. Um caminho de sutilezas que me orientam a conduta para a conquista de uma paz alegre, indescritível, pois esta paz é cheia de prazer, amor e vivacidade.


"Se cada um de vós, ó vós outros da televisão
_ vós que viajais inertes
como defuntos num caixão_
se cada um de vós abrisse um livro de poemas...
faria uma verdadeira viagem...
Num livro de poemas se descobre de tudo, de tudo mesmo!
_Inclusive o amor e outras novidades."

     Concordo plenamente...
    




Autores das poesias apresentadas:




1- Manoel Bandeira
2- Castro Alves
3- Mário Quintana








quinta-feira, 10 de abril de 2014

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO...

      Dia amanhecido__
entre os céus e a terra
os sons dos pássaros



      Saí cedinho para caminhar pela orla. A brisa refrescava o outono e animava-me.
     Já no Arpoador, onde procuro comungar com toda aquela beleza, aquele esplendor natural,  passei próximo a um grupo de jovens que, notava-se,  tinha pernoitado ali.
     Perambulantes nas praias, arrumavam suas sacolas improvisadas com os poucos pertences e, ao manuseá-los,  sentia-se um forte mau cheiro.
     Ao passar pelo grupo, ouvi parte da conversa em que um deles 'orientava' o bando a usar corretamente determinada droga. Misto de horror e profunda piedade sacudiram meu espírito.
    Depois o grupo se dispersou calculadamente. De dois em dois se afastaram.
    De modo que, nem mesmo o insistente canto do bem-te-vi, nem mesmo todo o mar de ondas salientes, nem mesmo todo o azul reinante  conseguiram desanuviar  o meu coração. Sinto dó da juventude equivocada, carente, sem ideais nem força, sem discernimento. Tão sós, tão sofredores, tão perdidos...
     Busquei a companhia do sol, presente nesta manhã silenciosa e sentei-me, quieta, num dos bancos de madeira, ao lado de uma palmeira, cujas palmas, ao sabor da brisa delicada, deslizavam pra lá e pra cá, suavemente.
     Aos poucos, fui me conectando àquela maravilhosa paisagem e percebendo os gorjeios das lavadeiras-mascaradas próximas a mim. A natureza palpitava  e me uni a ela durante um bom tempo.
     Deixei o recanto onde recobrei energias e reiniciei  a caminhada da volta, não sem antes bebericar uma água de coco.
     Surpresa maior me esperava no quiosque! Ao invés de músicas inexpressivas o que ouvíamos ali era uma tocante Ave-Maria! Não podemos deixar que o abatimento se aninhe no coração; a vida nos reserva sempre surpresas, geralmente boas!...
    
    
    
    


sexta-feira, 28 de março de 2014

O MELHOR REMÉDIO

     A afirmação do poeta __" Os jovens andam em grupos, os adultos aos pares e os velhos andam sós"__ me fez refletir.
     Realmente, se formos observar com atenção, veremos que esta é uma  verdade, fruto da percepção de Quintana.
     Em bandos os jovens vivem suas vidas, cheios de energia e nem pensam nela. Vivem, somente. Andam confiantes, vangloriam-se das possibilidades imensas e sentem-se afortunados.  Há, por certo, alguns mais pensativos, sonhadores, tímidos que não se revelam de imediato. Mas são as exceções.
     Adiante, quando adultos,  geralmente  formam suas famílias, encontram seus pares. Se são dissolvidos, encontram um  outro para , novamente, se unirem, dispostos.
    Porém, quando os filhos já estão criados e saem de casa, comprometendo os lares formados em 'ninhos vazios' ou quando um dos parceiros sucumbe à doença e vem a morte, então lá se vai a expectativa da tal felicidade eterna.
     O bom é mesmo ter a casa cheia, os filhos, a família; depois vem o ocaso, a velhice__ e esta não vem de solavanco. Não, vem aos poucos, devagar... sorrateira. Os olhos vão cansando... a saúde sendo comprometida... a pele, ah! a pele tornando-se flácida, fina, delicada; noutros casos, cheias de manchas  e, em muitos idosos vejo até feridas que se rompem em peles ressequidas ao extremo. 
     Cabelos brancos ficam secos, opacos e haja tinta! Sobrancelhas ralas, unhas frágeis; lábios antes carnudos e viçosos, agora finos e retraídos.  
     Ossos comprometidos, colesterol, pressão, tudo motivo de preocupação. 
    Mas a solidão abala definitivamente. A criatura que não se desenvolveu espiritualmente, que só pensou em acumular bens materiais, que se deteve em demasia a artifícios para manter a beleza se sentirá perdida diante de tantos equívocos. Então, virá a depressão, a ansiedade e a melancolia.  Muitas vezes a amargura e os queixumes. Ou, então, tentará fingir que conservou a juventude e agirá como um idiota. Usará roupas inadequadas, frequentará lugares inoportunos e manterá uma atitude inconveniente. Tornar-se-á uma caricatura lastimável. Ou não?...
     Questiono porque o percurso é de cada um. Ninguém é o dono da verdade e não poderemos afirmar ao outro como se portar  com maturidade, inteligência e elegância.
     Vejo, com frequência, anciãos a usarem bengala. Tenho uma amiga carioca, residente  na Bahia, que precisou usar uma. Como ela é muito alegre e estava muito triste por isso, aconselhei-a a comprar uma bengala que fosse bonita ! Colorida! E que a enfeitasse! Não é porque a velhice chegou com seus problemas que temos que nos sentir opacos. Claro que não! Aceitemos , sem dúvida, mas com o coração alegre e corajoso.
     Costumo dizer que sou um tanto 'quixotesca', em minhas atitudes referentes àquilo em que acredito.
     No caso de minha amiga, ela aceitou a sugestão. Tem agora uma bengala linda, cor-de-rosa, com muitas fitas do Senhor do Bonfim. E toda vez que dela precisa , Rosilda sorri. Aliás, sorrir ainda é o melhor remédio para (quase) todos os males.
    
    
Os pássaros
já partiram todos.
Mesmo a nuvem solitária
afasta-se ao longe.
E nós, minha montanha,
ficamos aqui, os dois, sozinhos,
a nos contemplar
um ao outro
sem nos cansar jamais.

                                       (Li Bai)



    
     

sexta-feira, 7 de março de 2014

UM ANJO DISFARÇADO

     Ela sentiu que aquela manhã seria especial! Era uma sexta-feira nublada, abafada, março, final de verão. Então, de máquina fotográfica em punho, lá foi, rumo à lagoa. Cuidadosamente, colocou a máquina_ sua infalível companheira de passeios, na mochila.
    Assim, animada, caminhou pelas ruas próximas que a levariam até àquela paisagem magnífica de um Rio de Janeiro que anda meio desprezado.
     Caminhou por uma, duas, três,  mais outra, ainda mais uma e, finalmente,a paisagem exuberante fora descortinada. Pássaros de várias espécies, cantoria, árvores, flores, águas plácidas e o céu... Ah! Aquele céu revitalizante!...
     Ficou algumas horas caminhando pelas pistas, às margens, sempre à procura de algo inusitado. Encontrou sabiás, bem-te-vis, patos, biguás, martins-pescadores, sanhaços e até um  galo-de-campina! Descobriu ninhos de joão-de-barro e entusiasmou-se com  o casal apaixonado de araras azuis.Foi uma experiência incrível!... Sua intuição estava certa.
     Resolveu voltar para casa, mesmo a contragosto, já que o sol despontara e o calor estava quase insuportável. Suava. O boné e os óculos escuros a protegiam um pouco; no entanto, os tênis e as meias a importunavam. Sentia sede, cansaço, dor nos pés.
     Atravessou a rua principal no semáforo e  pretendia retornar pelo  mesmo caminho. Lembrou-se de uma Cafeteria perto dali e decidiu que o seu café da manhã seria lá. Ao atravessar bem em frente à loja, percebeu uma senhora deficiente que, confusa, balançava sua bengala branca batendo na grande árvore da esquina. 
     Chegou  perto e perguntou à cega se aceitaria ajuda. Notou que muitas pessoas passavam e olhavam a cena com frieza e uma certa repulsa. A senhora já tinha idade avançada e era muito humilde. Trajava uma saia preta desbotada e a blusa, surrada, com trilhas de manchas respingadas. Num dos braços, uma bolsa escura bem velha.
     Ela agradeceu e sabia direitinho onde queria chegar, mas disse que, se a ajudasse na travessia,  já lhe bastava. Assim foi feito;  no entanto, a mulher não conseguiu deixar que aquela figura franzina e cambaleante, tocando com a sua varinha tosca os postes enfileirados pela calçada, seguisse sozinha. Não. Seria muita indiferença. Voltou-se e segurou-a pelo braço fino e trêmulo, confessando sua intenção. Levaria a senhora até o ônibus do metrô, sim!
     A cega, então, não se conteve e a abençoou  até entrar na condução. Foi contando pelo pequeno percurso a dificuldade que passou a ter depois de um tombo no metrô. Quebrara a bacia e depois de muitos exames e atendimentos iria ser operada. Mas, às vésperas, o médico foi removido do hospital e a sua operação cancelada...Nem comentou da cegueira. Todos os dias vinha até à Igreja para rezar e citou o morro onde morava. A acompanhante provisória ficara admirada com tamanha lucidez e tranquilidade ante aquela vida aparentemente tão precária. 
     Retornou para  tomar o seu café, mas o coração já estava alimentado pelo sopro do amor. Um gesto pequeno mas fundamental para quem precisa de um socorro. O socorro da atenção e do carinho.
    E  fora revigorada não só pela contemplação da natureza, mas também  pelo contato com aquela anônima criatura de voz doce  transbordante de ternura.




Nota: Ao colocar o título 'UM ANJO DISFARÇADO' refiro-me à cega que deixa a todos nós o exemplo da humildade, brandura, paz de espírito ante a adversidade da sua existência. Mostra-nos também a força coerente com a sua fé.
 Quanto à mulher que a ajuda, sua atitude deveria ser comum a todos nós, seres humanos.