terça-feira, 7 de abril de 2015

EXPLORAR AS TRAGÉDIAS?

    Nos meus tempos de menina, atrás da nossa casa, passava um rio... Depois dele, havia um terreno comprido e no meio dele, um pé  alto de jabuticabas. Em noite de lua cheia , eu ficava no jardim, sentada no banco comprido de madeira trabalhada, ouvindo o riacho, apreciando a lua e sentindo os perfumes.
 
 
 Século XXI! E pensávamos em progresso cada vez maior. Mas o que mais se vê , ou, o que a mídia mais nos revela são as ações corriqueiras da corrupção no meio político e  a continuidade da falta de saneamento básico nos bairros mais pobres. E isto é inadmissível.
     Enfrentamos o fantasma da calamidade maior que se aproxima__ agora, em largos passos, da falta d'água. Mas não me refiro àquela falta d'água consequência de um enguiço qualquer, que poderia ter conserto pela Prefeitura. Não, não. Refiro-me à morte das nascentes__ atingidas por grandes erosões, resultado do desmatamento__ à imagem dos rios definhando, à falta da água nas Represas, à falta de chuvas.
     Fico consternada ante à incapacidade dos órgãos públicos e ao seu descaso quanto aos avisos dos cientistas, principalmente, pois que há muito tempo vêm alertando o Governo. E  absolutamente nada foi feito.
     Ouvi na televisão , dia desses, num noticiário breve, que o Governador está providenciando pesquisa sobre a dessalinização das águas do mar, processo já estabelecido em algum país distante. Mas isto nos custará caro e demorará muito. A ação precisa ser rápida e perfeita! Há que se ouvir cientistas, pessoas que entendam profundamente do caso. E ainda agrava-se o quadro pelas incertezas do clima.
      Há que se explorar a tragédia para que se tome alguma iniciativa?
     Porque a escassez do líquido mais precioso gerará a decadência total. Desemprego, violência, indústrias fechadas, desabastecimento , como uma bola de neve.
     Agora só se fala em volume morto e a possibilidade de uma catástrofe. A  torcida é grande para que venha a chuva  mesmo em meses inesperados.
     Para não me perder em conjecturas pessimistas ao extremo, tento a leitura sobre medidas, que estão sendo tomadas fora do Brasil, que reduzem perdas, aumentam a eficiência do sistema e permitem planejar o consumo de modo racional.
     Confio na extrema criatividade do brasileiro e sonho que haverá, por certo, a atitude coerente, dinâmica e justa de cada um de nós, orientados por um Estado forte porque inteligente e honesto, para evitarmos a tragédia, que nos acena tal qual um fantasma aterrorizante.
 
 
 
    
 
 
 
    
     

terça-feira, 17 de março de 2015

CORAÇÃO BLINDADO

     Assisti hoje o filme Para Sempre Alice e, confesso, não me arrependi. Digo isto porque o tema é tremendamente desconcertante e quando vou ao cinema é para me distrair. Focar numa terrível doença como o mal de Alzeimer e discorrê-la durante toda a filmagem, não seria uma chamada para mim.
     Porém, enchi-me de coragem. Até porque, ultimamente percebo que meu coração anda meio blindado para certas cargas de emoção.
     A narrativa acontece de modo leve e delicado. Os diálogos nos prendem a atenção. Os atores são excelentes e tudo é conduzido de uma forma tão inteligente que nos concentramos do começo ao fim, com certos momentos de suave e pura emoção.
     Já no retorno para casa, na condução, refletindo ainda no desenrolar da estória, me detive a analisar certos esquecimentos que cometemos na vida. E me surpreendi.
     Passei dos esquecimentos rotineiros de pequenas coisas e de fatos mais relevantes para os dos sentimentos. Pessoas aparentemente saudáveis  fisicamente, mas que desconcertam aqueles que nada de mal fizeram. Ao contrário, prestaram favores, contribuíram com alegria esboçada em sorrisos e atenções, ofertaram o seu tempo. Mas eles disto se esqueceram. Gritam seu desespero, olham com seu próprio desprezo, gesticulam com a sua própria alienação.
     Esquecem-se também da fala mansa,  da cortesia, da gentileza, da educação que, certamente, receberam. Esquecem-se do que pregam e agem então por impulsos brutais. Esquecem-se das cenas belas, das pessoas boas e das crianças puras  com as quais conviveram  e se deixam abater por maus pensamentos, pela raiva e pela hostilidade. São dominados pelo esquecimento dos atos bons momentaneamente.
     Pessoas assim  me causam estranheza. Fico triste em perceber o descaso com que tratam aqueles que procuram ajudar, colaborar, participar de suas vidas. Não lembram mais como é bom tratar as pessoas com amabilidade e doçura! São impacientes, irritadiços, intolerantes.
     Mas esta atitude agressiva , na vida atual, é  comum. Muita tecnologia, contudo o coração tornou-se um tanto necrosado. Seria um mal de Alzeimer na alma, no sentimento.
Para estes talvez a cura surja quando a consciência despertar. É viver pra ver e ver pra crer.
 

"...
Eu me lembro daqui, outrora,
aproveitando o tempo fresco.
Com frequência andava
na beira do lago
bordado de árvores.
..."
(Du Fu)
 

    
    
    
    
    

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

QUERO-QUERO

     Houve um tempo em que passei a viajar. Comecei pelas pequenas viagens, no próprio estado, depois ampliei um pouco o meu voo. Cidades do Nordeste, cidades do Sul... Cheguei a viajar para fora do Brasil uma só vez para conhecer New York.
     Hoje à tarde, ao folhear meus álbuns de fotografias, as lembranças afloraram e, junto com elas, a vontade de voltar a conhecer lugares, pessoas, culturas. Se bem que, com o passar do tempo, desenvolvi certa habilidade de atenção e interesse em todos os momentos e em quaisquer lugares. Como, por exemplo,  determinada a caminhar menos depressa, seguir  pelas ruas do bairro onde moro a observar, por exemplo, árvores que nunca tinha percebido, por pura distração.
     Às vezes, ou quase sempre, os pensamentos de preocupação nos tolhem a vida. Os chineses é que, espertos que são, deduziram há muito tempo que ' preocupação é como a cadeira de balanço: não leva a lugar nenhum.'
      Então, deixar a mente livre estando em trânsito ou mesmo num determinado local nos facilita a percepção. E como se torna interessante este movimento!
     No princípio estranhamos mas, depois, enriquecemos a nossa existência, porque a percepção se dilata. E percebemos melhor não somente o ambiente, mas também as pessoas. Tudo aquilo que nos circunda. 
     E é assim, com este espírito antenado, que vivo agora os meus dias. Em tudo me detenho, observo, apreendo sem julgamento.  
     Ir à praia, olhar para o mar com atenção, deter-me a observar a grande fragata mergulhar nas águas mansas e retornar instantes depois, os biguás em seu alvoroço, os pássaros pequenos pela areia __ eu nunca tinha reparado neles! Bem-te-vi, lavadeira-mascarada, joão-de-barro ,  quero-quero...
     Levantar o olhar a apreciar as palmeiras, seu balanço pela brisa fresca, descobrir ninhos protegidos entre galhos e ramas e até no alto de um poste no Arpoador!...
     Esquecer da pressa. Pressa para quê? Entender  que usamos o mesmo tempo, tanto para escolher o tédio, o  aborrecimento , a irritação,  a impaciência  como para permitir que uma certa placidez aconteça. E poderemos nos admirar muito  pelos benefícios  causados por este novo comportamento.
     Tornar-nos-emos  suaves, menos ansiosos, mais verdadeiros, menos melancólicos.
     Faço uma viagem quase todos os dias, observando, aprendendo, descobrindo, enriquecendo naturalmente  a minha vida. E como é bom!
     Sugiro esta prática  aos ansiosos e aos que pregam a necessidade de viajar para que se cresça. Pois eu afirmo que tudo vai depender do nosso comportamento,  da nossa atenção desenvolvida, da nossa disposição, do modo como reagimos aos fatos, às novidades, aos acontecimentos, aos imprevistos.
      Muitos viajam e levam o seu estresse junto. A viagem, neste caso, não dará muitos frutos. Só aborrecimentos e preocupações.  Ou, então, vivem a reclamar porque não podem viajar!
     Aprender a relaxar primeiro e depois lançar-se à aventura do conhecimento da vida! Que pode ser aqui e agora.
 
 
 

 
 
 
  
...
Dia após dia eu só enxergo
o voo das gaivotas.
Trilhas repletas de flores,
por que varrê-las?
...
 
           ( trecho do poema Visita, de Du Fu)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

"... COMO UM SUSPIRO DE EXTINTO GOZO..."

     Caminhando à tarde pelas ruas aqui do bairro, observo a impaciência das pessoas que transitam, esbaforidas. Correm para onde? Qual o motivo de tanta pressa?
     Sem querer, esbarram, atropelam, insanos momentaneamente. E fico me perguntando o que move estas pessoas para que ajam assim?
     A vida passa muito rápido! Isto já percebi. Creio que viveríamos bem melhor se mantivéssemos a calma, a ternura, o bom humor, a gentileza. Não dizem que " gentileza gera gentileza"? Pois é...
     Num mundo só meu, dissipo meus iniciais desmantelos mentais pela atenção plena movida pela vontade; e afirmo que, às vezes, confesso, não é nada fácil! São infindáveis os estímulos para que nos desorganizemos emocionalmente e, com isso, dá-se o  abalo físico, gerando desde uma simples dorzinha de cabeça que um analgésico comum soluciona, até uma doença grave ou mesmo, crônica.
     Lembro-me de um renomado fotógrafo que passou a vida a clicar cenas desconcertantes, nefastas, mostrando miséria, doença, decrepitude. Até que adoeceu e foi-lhe dito que se não mudasse o foco, não teria cura. Seria o seu fim. Mudou a atitude, então. Passou a se interessar pelas belezas do mundo natural. Viu sua saúde ser recuperada aos poucos. À medida que se detinha na observação da vida, sua saúde era normalizada. 
     Faz sentido. Se você presta atenção em determinado fato, esmiúça-o e repete e repete, certamente essas informações serão guardadas no seu computador, o cérebro. E isto, possivelmente, irá afetá-lo.
     Tomamos conhecimento de muitas informações para  nos preservarmos, mas esbarramos em tanta notícia negativa que , geralmente, não conseguimos suportar.
     Hoje, por exemplo, me detive a ver o noticiário na TV durante o café da manhã. Isto foi péssimo! A hora em que nos alimentamos, dizem os mestres, devemos silenciar e comer em quietude, com respeito, a nossa refeição. Logo de início, noticiário trágico, anúncio de mortes, de bandidagem. Uma lástima!
     Por distração, talvez, estamos longe de admitir que isto nos faz mal.  Quanto mais notícias de crueldades, mais violenta a sociedade será. Até os filmes na televisão, que seriam para a nossa distração, nos transmitem emoções ruins, pesadas.
     O premiado artista japonês Hayao Miyazaki, afirmou recentemente: "...Talvez tenha havido um tempo em que era possível fazer filmes que importassem, mas hoje muito do mundo é lixo".
      E ficamos assim, meio negativos, meio melancólicos, meio... Nunca inteiros! Porque a Natureza, da qual fazemos parte, nos aponta o caminho da sanidade, das bênçãos da alegria, da suavidade, da fraternidade, da ação harmoniosa. Mas ainda estamos longe destas conquistas que nos trarão sanidade, paz e amor, de fato.
     Portanto, haja Poesia!... Pois a Arte em geral   nos salva da loucura, do desequilíbrio, da indiferença, da maldade.
 
de Manuel Bandeira,
FELICIDADE
 
A doce tarde morre. E  tão mansa
Ela esmorece,
Tão lentamente no céu de prece,
Que assim parece, toda repouso,
Como um suspiro de  extinto gozo
De uma profunda, longa esperança
Que, enfim cumprida, morre, descansa...
 
E enquanto a mansa tarde agoniza,
Por entre a névoa fria do mar
Toda a minh'alma foge na brisa:
Tenho vontade de me matar!
 
Oh, ter vontade de se matar...
Bem sei é cousa que não se diz.
Que mais a vida me pode dar?
Sou tão feliz!
 
__Vem, noite mansa...
 
 

 
    
    

domingo, 23 de novembro de 2014

SAGA DE UMA GRÁVIDA

     Dia desses, estava assistindo na TV o depoimento de um conhecido médium que tem sonhos premonitórios e até os registra em cartórios__ de tão reais que são, quando recebi várias mensagens de uma amiga que iria viajar a trabalho.
     O sensitivo, num programa de entrevistas, detalhava o grande acidente aéreo que está prestes a ocorrer; enquanto que, minha amiga, pelas mensagens no celular, narrava-me os contratempos que sofria causados pela  empresa aérea.
     O acidente tinha dia e hora marcados, número do voo e o lugar onde irá acontecer. Já a minha amiga foi surpreendida.
     Voo confirmado, check-in realizado, portão de embarque registrado. Grávida, ela aguardava tranquila. No entanto, com os passageiros já acomodados, avisaram que havia um problema e que o avião não podia decolar. Saiu todo mundo revoltado, xingamentos, falação... Hotéis para os que não moram na cidade de Salvador e táxis providenciados pela companhia.
     Luzia voltou para a empresa onde trabalha. Teria que esperar até à tardinha, no novo horário oferecido. Perdera a reunião de trabalho em Juazeiro.
     Partiu de novo para o aeroporto no horário previsto.
     Dentro da nave, a música  altíssima importunando fez com que pedisse para que abaixassem o volume e torcia para que atendessem ao seu pedido. Além deste fato, um barulho persistente acompanhou todo o trajeto do voo: 'nhencnhencnhenc...' Os passageiros nervosos, comentando: "Parece um carro velho que não quer pegar!"
     E sanduíche? Tinha!!! De carne seca! E o homem ao lado , com fiapos trincados nos dentes, disse-me ela, tentava, desesperadamente, arrancá-los com a força da língua que se alongava em movimentos satânicos e barulhos esdrúxulos.
     O avião pousou em  Petrolina. Ufa! Agora é tomar um táxi e partir para a cidade próxima de Juazeiro.
     E não é que o taxista, um ferrenho defensor da moral e dos bons costumes,  a atormentou durante o percurso falando verborragicamente sobre política!? Como não opinasse, displicentemente olhava para a paisagem vista pela janela ao lado, ele partiu, então, para um assunto mais polêmico: Casamento entre gays! Minha amiga não sabia mais o que fazer... Sua cabeça fervilhava. Queria manter a postura pacata, mas   aquela falação a deixava cada vez mais exasperada.
     Finalmente chegou ao seu destino! Acomodação no hotel já previsto, um bom banho e uma noite de sono a fariam recompor-se, pensou.
     No dia seguinte, brindada com um café da manhã farto, típico nordestino, com cuscuz de milho, tapiocas e ovos mexidos, entre outras iguarias, estava nova em folha! Rumo  para a reunião de trabalho!
     Dia findo, aeroporto novamente.  E qual não foi a surpresa da noite? A empresa, por seus funcionários, revela a grande preocupação no check-in do balcão, quando minha amiga escreveu que estava com vinte e cinco semanas de gravidez. Ela só poderia embarcar com o atestado de um médico!  Portanto, somente no dia seguinte embarcaria.
     Luzia fez um escândalo!... Determinada, providenciou o check-in na máquina, porque a funcionária se recusou e foi uma confusão. De onde tiraram esta ideia estapafúrdia? E o seu trabalho? E porque não avisaram antes? E que cuidados são estes criando todo este alvoroço? Isto faz bem pra quem?
     Um passageiro médico  se prontificou a prescrever o tal atestado. E tudo terminou bem. Santo homem.
     Estavam preocupados com a segurança da mãe e do bebê, palavras da funcionária do balcão; no entanto, permitem e aceitam um atestado de um médico desconhecido que nunca a viu e que não a examinou.
     Pois é... Existem companhias e companhias... Há que serem feitas as escolhas certas. Neste caso em questão, a escolha foi feita pela empresa onde Luzia trabalha.
     A companhia aérea, avisada pelo médium do acidente que ocorrerá na próxima semana, já tomou uma medida preventiva: mudou o número do voo. Talvez tenham consultado algum numerólogo e assim, quem sabe, acreditam ter evitado a catástrofe. Aliás, é para isto que servem estes sonhos.
     Já a empresa que faz os voos de Salvador para Petrolina e que aceita atestados médicos de araque continua com os seus voos assustadores e suas medidas 'burrocráticas'. É acertar os ponteiros da gestão.
    
 

  
     

terça-feira, 18 de novembro de 2014

SOB AS BÊNÇÃOS DOS ORIXÁS

     Sobre a amizade é o que quero falar....ou, escrever, melhor dizendo.
     Há uns dez anos, quando viajava mais, conhecendo este Brasilzão, num dos museus do nosso país__ aliás, um museu lindo, bem organizado, de dar orgulho a qualquer brasileiro que se preze: o  Museu do Homem do Nordeste, em Pernambuco__ conheci um jovenzinho.
     Muito falante, um farto sorriso, um  comunicador por excelência, inteligente, alegre. Natural de Garanhuns, interior de Pernambuco.
     Ali mesmo nos entendemos. Foram e-mails trocados, experiências de vida compartilhadas, dicas sobre como fotografar uma bela poesia que se esgueirava, à sombra, na parede. Tudo sendo dito com espontaneidade e alegria.
     Com uma foto, como se fôssemos companheiros de escola, selamos a amizade que se iniciava  sob as bênçãos dos orixás...
     Lembro-me de que ofereci a ele um exemplar do meu primeiro livro __ Palavras Transformadas, pois carregava sempre  alguns exemplares comigo.
     A amizade brotava. Diriam alguns...'apesar da diferença de idade...', o que pra mim não conta; supero facilmente estas pequenas e ridículas e inúteis e tolas e equivocadas considerações. Amizade, amor, compreensão são laços do espírito, portanto o critério é bem diferente.
     Atração física é outra coisa. O homem há de se interessar por uma mulher jovem, sedutora, de pele lisa e macia, portanto, com dotes físicos que o atraiam e o dominem. Tudo explicado pela mais santa das intenções da Vida: a procriação.
     Quanto à mulher, já que é mais frágil e disposta às ilusões, flutua ante o sentimentalismo. E  talvez até sucumba a um homem jovem, forte, esbanjando hormônios.
     Mas tudo passa, como um vento forte, levando embora expectativas de eternidade quando os laços são os da carne. Varridas as ilusões , o que resta é o espírito. Este sim,  não morre nunca, sustenta o amor. Amor é laço eterno. O restante acaba, assim como as rugas aparecem, surgem também, com o passar do tempo, os desentendimentos, porque o ser humano é inquieto, quer novidade.
     Portanto, prezo a amizade que não cobiça, não estranha, permanece fiel, pois seu alimento é a pureza do amor.
     Até os dias de hoje nos comunicamos. Um encontro bonito, suave, criativo  que continuará para sempre, enriquecendo as nossas vidas.


 
"...
Se por acaso
encontro um velho amigo,
ficamos de conversa e rimos,
a ponto de nos esquecermos
de voltar para casa."
 
                         (Wang Wei )um velho amigo,
ficamos de conversa e rimos,
a ponto de nos esquecermos
de voltar para casa."
    

domingo, 2 de novembro de 2014

TUDO LIBERADO!

     Hoje foi um domingo diferente. Sim, digo 'diferente' porque hoje são 2 de novembro e todo mundo estava lá. Estavam lá no shopping, lotando os restaurantes, os jovens fazendo algazarra, crianças correndo, muita azaração, sorrisos, cantadas, diversão.
     Uma cafeteria a que estamos acostumadas a sorver nosso cafezinho, entre conversas e trocas de ideias, hoje, especialmente hoje, estava lotada! E mudamos de rumo pra não perdermos a prosa.
     Nada nos iria abater; afinal, esperávamos, eu e minha amiga de longa data, pela tarde do domingo para colocarmos as novidades em dia.
     Nada disto seria estranho para mim se hoje não fosse  Dia de Finados, uma data especial, em que reverenciamos os nossos mortos. Uns vão aos cemitérios levar flores, outros às igrejas a fazer prece. Mas todos, sem sombra de dúvida, respeitosos na lembrança dos que já se foram.
     Quando criança, lembro-me, minha mãe vivia a me chamar a atenção e eu ficava sempre muito desconcertada, pois desagradava-me o fato de não corresponder à sua  expectativa! Tínhamos que permanecer em silêncio quase absoluto nesse dia e, como eu vivia cantarolando, era preciso que me controlasse.
     Aquilo era um verdadeiro sacrifício para mim! Ficar de boca fechada para não faltar com o respeito aos mortos! Que decisão macabra!... Será que eles __os mortos, então, estariam ali, perto de nós, para se incomodarem com o nosso cantar?
     E olha que eu caprichava no repertório! De Sarita Montiel a Carlos Gardel, passando por Emilinha Borba.  'Granada' era a minha favorita; eu abria os pulmões, soltava a voz, sem nenhum pudor, sem constrangimento, sem crítica.
     Mas, o tempo vai passando , a gente amadurece e a sociedade muda. Os comportamentos acompanham esta mudança. Nada de silêncio! As canções estão liberadas! Só peço a Deus numa prece que emudeça quem quiser cantar funk. Aí, seria demais para  qualquer mortal __ vivo ou falecido, cuja sensibilidade esteja aflorada ainda, aqui ou no além.