sábado, 10 de junho de 2017

SAIA JUSTA

    
     Tenho observado com cautela certos textos . E, confesso, causam-me estranheza e perplexidade!
     Absurdos de linguagem, ideias trôpegas, trocadilhos chamados com empáfia de poemas... Causam-me tristeza, isso sim!
     Arte, para mim, nos enleva. Ou, como afirmou o mestre Quintana, nos abala! Como a que estou a apreciar agora: a bela Habanera, interpretada  pela voz inigualável de Carmem Monarcha, com acompanhamento da orquestra do genial André Rieu.     
     Parei o que estava fazendo. Nada mais importava. Os barulhos cessaram, como por encanto. Minha alma ligou-se àquela beleza eterna. No caso, a arte em questão é a música. E fico a imaginar quanto tempo de estudo, de treinamento há que se ter para que o artista possa contemplar o mundo com o seu talento esmerado.
     Há um tempo atrás, indo conversar sobre Mario Quintana com jovens atendidos no IRS (Instituo Rogerio Steinberg),  distribuí alguns pequenos  trechos deste autor para o grupo. E a atitude de uma jovenzinha me tocou: ela leu em voz alta : " Para mim, um poema tem que abalar a criatura! ". Ela levantou os olhos sonhadores e retrucou: "__ Que lindo! Vai sempre estar comigo para lembrar-me."  E colocou no pequeno bolso da blusa.
     Dia desses, num grupo de pretensos escritores(!)de uma rede social, alguém menciona a grande vontade de viver no Brasil  da publicação dos seus livros de poemas... Quer ter sucesso! Quer ser reconhecido, aplaudido, considerado. Mas, na narrativa da ambição, quantos erros de Português!
     Minha memória correu direto para certa vez, quando uma pessoa que assistia um recital, me entregou alguns poemas de sua autoria e pediu a minha opinião. Veio simpático, garboso, confiante. Eu nem o conhecia. Tomei-lhe, então, das mãos firmes os papéis soltos, com escritos longos, a tinta.
     O nosso idioma massacrado, ideias chulas, textos pobres, sem desenvoltura foi o que vi e li. Postado ao meu lado, sorrindo, confiante, aguardava esperançoso. Pedi a sua confirmação: Quer sinceridade ou apenas elogios levianos? Ele continuou a sorrir e categórico, disparou: A verdade!
     Eu estava numa "saia justa", como se diz. Gentilmente , tentei mostrar-lhe o acúmulo de erros tanto ortográficos, como gramaticais e a possibilidade da abordagem dos assuntos de maneira mais elegante e poética.
     Enfureceu-se o homem. As bochechas, antes em tom ocre, agora vermelhas como um camarão! Os lábios crisparam-se. Suas mãos trêmulas tomaram os papéis e, com a voz rouca, comentou ligeiro que tinha feito o uso da licença poética! ... Calei-me. Percebi que não poderia haver diálogo com a criatura. Virou-me as costas e desapareceu, pisando duro...
     Este assunto dará panos pra mangas... Mas, por hoje, ficamos por aqui, pois as ideias avolumam-se e não pretendo entediá-los. Termino com citações do grande Quintana e, na próxima crônica, quem sabe Coralina terá voz?
 
     " Porque Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação. Um poeta satisfeito não satisfaz. "

domingo, 4 de junho de 2017

TINHA MUITO O QUE DIZER

     Achei um texto interessante numa dessas redes sociais e me identifiquei por completo. Tanto que não exagero se disser que gostaria de tê-lo escrito! De um autor conhecido e reconhecido, um escritor  habilidoso,  falecido em 2014.
     Trata-se de Rubem Alves, cujo título refere-se à jabuticabas, mas garanto que não é delas o tema.
     Interessada no que mais teria escrito, corro à  livraria do bairro e me perco em tão grande número de livros editados. Isto é uma proeza! Para editarmos livros é preciso dinheiro. Custa caro.
     Para quem estudou  Pedagogia, Teologia,  Psicanálise e tornou-se, além de poeta, um cronista de primeira e um contador de histórias, tinha muito o que dizer.
     E com sua linguagem comunicativa, acessível, sem empolamentos desnecessários ao bom texto, o acadêmico campinense hoje é um dos meus preferidos.
     Simples e direto, comenta no referido texto, que me agradou em cheio, não só pela forma da escrita, mas, também, pelo assunto discorrido, tudo aquilo que ele não quer nem ver, nem ouvir, enfim, quer viver o tempo que lhe resta em conformidade com o que lhe vai na alma. Quer ser sincero e autêntico consigo mesmo. Precisa ser feliz com urgência.
     Ele está determinado a ignorar o que lhe constrange, perturba, desagrada, o que lhe rouba o tempo. 
     Num capítulo do livro que estou a ler agora, Os Ipês Amarelos, ele relata sobre o que lhe dá prazer. Como, diz ele, sabiamente, " as pessoas são o que gostam", aprendi a conhece-lo.
     Narra do seu amor aos ipês amarelos, do seu gosto de caminhar sozinho  a apreciar tudo a sua volta; das cachoeiras, música clássica, poesia, som da viola...
     E então, fui me identificando com este autor: música clássica, som da viola, vento na cara, poesia, Monet, jardins(Sou visitante assídua do nosso Jardim Botânico!), comida mineira e por aí vai.
     Um ótimo exercício para nos mantermos numa faixa vibratória boa, serena, benéfica: pensarmos naquilo que nos agrada a alma.
      Fiz o exercício. Ao final, um sorriso leve se manteve no meu rosto. Recordei os meus passeios matinais pra ver o sol nascer,   Sonho de Amor de Lizst,   o encontro com as  saíras-sete-cores tomando banho em bromélias, os momentos em que eu e vovó Ritinha víamos as estrelas nos céus límpidos de  Sapucaia(isto não tem preço!),   as pinturas de Gauguin, as aquarelas de Faya Ostrower...
 
     O mundo é maravilhoso, constatamos, nós dois, eu e Rubem Alves. E , como bem disse em sua crônica,  "escrever é o meu jeito de ficar por aqui". O meu também.
 
     
    
    
    
    

sábado, 22 de abril de 2017

O TÍMIDO BOTÃO DE VIOLETA

    
 
     Surgiu o botão de violeta inesperadamente, no sábado cinzento e frio de outono. Surgiu, assim, espontâneo, natural, reação de vida, mesmo morando num pequeno vaso, em cima da minha mesa de  sonhos, compartilhando espaço com livros, canetas, cadernos, entre rabiscos e telas e tintas.
     A natureza  é incrivelmente determinante, forte, impetuosa. Recupero a alegria meio abalada pela notícia  que recebi logo cedo de uma amiga. Seu pai, que acumulara mais de noventa anos de existência , falecera.  
     Mesmo entendendo que sua tarefa, neste mundo, tinha sido arrematada, a falta de um ente querido empobrece a vida de quem fica.  Então, movida pelo baque, senti pela amiga; imaginei o seu pesar, o sofrimento da sua mãe também muito idosa. Compadeci-me.
     Eis que o despertar de um tímido botão rosado enfeitou o meu dia, renovou o meu sentir, o meu pensamento.
     Quando me vejo  assoberbada, me dirijo  a um parque, ou jardim, ou me lanço nas águas do mar. Hoje não foi preciso. A plantinha, tão mimosa e pequenina, foi generosa.  Porém, ontem, dei um pulinho num Jardim especial. O Jardim Botânico do Rio de Janeiro. E lá me detive, me recompus, apesar de  compartilhar, durante toda a viagem,  com o carrancudo taxista, um programa em que era discutido um assunto horripilante. Nem vou discorrer aqui sobre ele. Entendo que, quanto mais comentarmos a maldade, a loucura, o desequilíbrio, mesmo à guisa de esclarecimento, pior o mundo se tornará. E eu quero viver num mundo ameno, feliz, suave, esperançoso. Quero garantir saúde mental.
     Cautela é como caldo de galinha, já dizia vovó, não faz mal a ninguém; portanto, sejamos cautelosos, inteligentes, astutos;  esmiuçar fatos negativos envenena a mente.  Turva o nosso coração, a nossa alma.
     Curvemo-nos, portanto, à beleza da natura que está aí por todos os lados, que , farta, nos envolve e alerta, nos purifica, nos alimenta, nos sustenta; aos  seus perfumes, aos ares límpidos, ao convívio com a verdadeira vida. 
    
(na foto, mico no jambeiro)
       
     Muitas vezes quando lá estive_ no Jardim, vi inúmeros fotógrafos profissionais com suas máquinas e lentes possantes e  noivas e grupos de  formandos ocupando as aleias e os gramados. E esta ação tornou-se comum e exagerada, a ponto dos banheiros do Parque ficarem lotados com pessoas trocando de roupas para as incontáveis poses. 
     Agora, em virtude de tanto atropelo, há regras rígidas: Um acordo para ser lido , uma taxa mensal e outra ocasional, todas as vezes em que precisarem daquele cenário espetacular para realizarem seus trabalhos fotográficos.
     Há que ser preservado um lugar assim, tão inspirador, onde damos conta da grande paz e do imenso manancial de vida e de estímulo à criação.
     Em meus passeios solitários, um rio de inspiração me alimenta e muitas pinturas e poemas ali já realizei. Soube  que Clarice Lispector também abastecia sua criatividade ali. Ou, simplesmente, descansava e se restabelecia de algum sentimento nocivo, destes que nos prostram e nos aprisionam na ilusão da derrota.
     Num pequeno espaço, existem agora alguns bancos com frases de sua autoria:
" Sentada ali num banco, a gente não faz nada: fica apenas sentada deixando o mundo ser."

(fotos de minha autoria: um jambeiro carregado de jambos, acima e de uma aleia de jambeiros, abaixo)
A Natureza pródiga
Estende um tapete vermelho-carmim
Submisso, a meus pés.
A cada minuto, um eco
Da tinta rubra que cai na tela
Da terra barrenta.



Tem um cheiro gostoso...
É um não sei quê de suave e doce...


E o som continua a espocar.

Estamos sós. Eu e os jambos.

(do livro Fragmentos da Memória, de minha autoria)
 
 
     
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

SERÁ QUE É PALAVRÃO?

     O dia amanheceu silencioso. Estava tudo aparentemente igual: as mesmas montanhas, o mesmo mar, o céu infinito enfeitado de nuvens, a brisa que empurrava as ondas, os corajosos surfistas, as pedras  mágicas do Arpoador...
" ... fogem do mar as ondas esquivas, para bordarem com a sua canção cada lugar silencioso..."  ( Cecília Meireles)
          Presenciei as enormes fragatas cruzando os céus. Eram muitas... dezenas... Iam de um extremo a outro. Surgiam detrás da pedra do Arpoador voando baixo e desapareciam por trás das montanhas.
     Fiquei ali um bom tempo, admirando o cenário tão belo. Deixei-me arrebatar por esta beleza forte e verdadeira da natureza. É o que me dá ânimo e resistência aos atropelos da vida.
     A jornada estava só começando. Afinal, era cedo, tinha feito um exame de rotina__ desses para nos certificarmos como andam as taxas do tal colesterol!...  E, quando já saboreava goles do capucino quentinho, oferecido pelo laboratório, eis que alaridos cortam os ares.    
     Gritos de "Pega ladrão!"  assustaram a todos nós. E se o tal bandido entrasse para se refugiar? Afinal, as portas mecanizadas abriam-se logo que chegávamos. Permaneci mais um tempinho ali até não haver mais tumulto.      Ele, o ladrão, fora pego. Ufa! Alívio geral.
     Cedo, tinha me programado um pouco, porque gosto dos imprevistos. Dos bons, claro! Então, depois do almoço leve, saí pra resolver coisas. Escolhi o metrô e lá fui eu.
     Após desembaraçar-me de alguns compromissos, reencontro uma amiga de longa data. Nossa! Quanta alegria! E o que me disse, tocou-me: "_ Eu estava com saudade de você!"
    Cruzamo-nos numa calçada_ eu indo pro  Cafeína, ela indo para o Banco. E conversamos e falamos e recordamos e  nos abraçamos mil vezes e rimos  muito e , por isto, custou-nos a despedida. 
     Na volta, aproveitei a exposição na Aliança Francesa de fotos por Smartphone trabalhadas pela artista ( Christiana Guinle), "fundindo o processo criativo com o mecanismo digital." Apesar de não ter me tocado,  Arte sempre vale a pena conferir.
     Voltei pra casa de metrô novamente. Por enquanto, acho muito confortável e seguro.
    Entro no vagão cheio. De repente, alguém salta e as pessoas próximas me apontam o lugar, convidando-me para sentar. Isto é incrível!  Aliviei as pernas.
     Sorri para a moça ao meu lado. Ela correspondeu ao meu sorriso, mas percebi que, a cada parada, ela exclamava baixo, sussurrando entre dentes: "_Merda!"  (será que esta palavra ainda é considerada um palavrão?) E balançava as pernas volumosas, aparentando cansaço e ansiedade.
     Arrisquei uma  conversa: "_ Você sabe me dizer se o metrô tem parada no Leblon?"  Ela, gentil, voltou-se para mim  sorrindo e respondeu, olhando-me nos olhos: "_ Sim, vai! Eu salto no Jardim de Allah."
     Retruquei  então que, quando eu quisesse ir ao Shopping Leblon, usaria o metrô. Ela sorriu.
     Livrei-me de mais ou menos uns três palavrões. Despedimo-nos com sorrisos(novamente). Acho que , no total,  foram mais de três!
     Desembarco. E ,então, haja fôlego para a longa caminhada e para as escadarias da estação. Será que este foi o motivo pelo qual uma jovem desmaiou à beira de uma das intermináveis escadas?
      Estava lá, deitada, corpo  inerte,   pernas retorcidas guardadas numa saia preta recatada, torso coberto por uma delicada blusa branca de algodão, dois homens debruçados sobre ela, tentando reanima-la. Talvez fossem médicos, pensei.
     E os seguranças, quais vespas agitadas, em torno da vítima, ligando de seus aparelhos, pedindo socorro, imagino. Parecia cena de filme de suspense.
     Saio da estação e caminho devagar, para usufruir da leve brisa de outono que me refaz de qualquer cansaço. Até que finalmente, chego em casa,  me atiro no pequeno sofá, fecho os olhos e tento relaxar ao som de Andrea Bocelli.
    
    
    

quarta-feira, 22 de março de 2017

MEIO ISSO, MEIO AQUILO...

     Fui ao Shopping, como de costume. Afinal, depois das agulhadas da acupuntura para o alívio das dores da lombar, nada como apreciar vitrines e almoçar num restaurante gostosinho, tipo Viena. Aliás, lá, costumam apresentar um prato delicioso de batata-doce  assada e perfumada com alecrim!
      Logo após, fui ao toilette me ajeitar. Percebi que uma moça , ao meu lado, também se arrumava, meio sem jeito, meio afobada, com os finos lábios meio cerrados. Lavava as mãos destemperadamente. Seus olhos tentavam acompanhar-me, furtivos.
     Incomodou-me, um pouco, confesso. Desconfio das pessoas arredias que nos observam friamente.
     Quando tirei do fundo da bolsa o tubinho de creme para mãos, ela aguçou o olhar! E, ao  esticar das mãos para os braços, com suavidade o creme, pois , sem perceber, tinha excedido a quantidade, ela, entre dentes, não se conteve: "_ E ainda passa nos braços!" _ como se fosse um ato condenável. Imaginem só o meu espanto...


     Tenho um amigo, cuja amizade conservo há muitos anos, que certa vez afirmou-me categoricamente: " _ Sylvia, as pessoas julgam o tempo todo." Eu discordei, até porque não ajo assim. Procuro estar em mim, prestando atenção ao que realizo no momento, a tal atenção plena, na qual gosto de me exercitar.
     Depois do que  a jovem mulher murmurou maldosamente, saiu do banheiro rápido e foi, pelo corredor, desabaladamente , com seu jeitão meio ríspido. Dava pra notar.
     Dali parti para a Saraiva, livraria simpática que tem um café digno de nota. Uma revista emprestada nas mãos _ Vogue e estava pronta para distanciar-me desta impressão desagradável.
     Acompanho o blog de uma mulher muito famosa, pois reconhecida no meio da moda. Sofisticadíssima e simples, ao mesmo tempo. De uma simplicidade natural que cativa. Escreve no seu blog  e grava vídeos onde discorre sobre diversos assuntos, inclusive sobre sua vida pessoal. 
     Fico me perguntando se todos os que se conectam com ela são realmente seus admiradores, afinados com suas ideias e atitudes elegantes. Claro que não. Alguns, certamente, observam e condenam, elogiam e criticam.
     Hoje enviei-lhe uma mensagem e ela, muito educada, respondeu-me imediatamente. É o que não vejo acontecer no zap , nem no Messenger. Ou ignoram, ou demoram dias a responder... A mesma atitude no Facebook, pois solicitam a amizade e nunca, nunca se manifestam. Dá uma má impressão. Mas não irei comentar sobre isto , senão corro o risco de julgar!...
 
"...
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
..."
                                                                                                                          (Alberto Caeiro)
    
         

quinta-feira, 9 de março de 2017

QUE NOITE!...

     Como de costume, levantei-me de madrugada para beber água. Sonolenta, vejo uma mancha escura na penumbra a mover-se. Primeiro, devagar, logo em seguida, rapidamente.
     Identifico: é uma barata!  Gorda, grande, castanha dourada, dessas voadoras.
     A situação era aflitiva! Aquela visão gelou-me a espinha. Os pelos dos braços finos eriçaram-se. A secura na boca, os olhos esbugalhados e o cérebro completamente despertado, a bolar estratégias a fim de embaraçar a sinistra invasora.
     Pensava rápido! O que fazer pra acabar de vez com aquele momento desconfortante? Só de pensar que ela poderia ir para o quarto, eu ficava desesperada. Mas a barata também, pois percebera a minha total animosidade...
     Peguei a velha havaiana amarela que calçava  e , decidida, tentei dar-lhe um golpe fatal. Mas a esperta acomodou-se rente à estante e, assim, não fui feliz. Salvou-se a meliante! Fez uma curva com classe e postou-se no centro da sala, desafiadora.
     Lembrei-me de que, certa vez, num hotel em Teresópolis, um funcionário revelou-me que nada melhor do que uma vassoura de piaçava para matar aranhas, já que havia uma enorme no banheiro.
     Fui rápido, então, para a cozinha pegá-la, podia dar certo com baratas também! Quando voltei, a infeliz tinha desaparecido!
     Refleti sobre a sua posição na sala e deduzi que não deveria ter ido para o quarto,provavelmente, ainda estaria ali, na sala. Apavorada, coloquei uma dessas torres de ventilação , bem na entrada do quarto. Botão da máxima velocidade acionado. Olhei à volta. Nada.
     Talvez conseguisse dormir, mas qual o quê! O sono fora embora de vez.  Acendi todas as luzes e, de olhos bem abertos, olhava o teto e o chão. Fui assim, até de manhãzinha.
     Agora, teria que enfrentar o medo de uma vez por todas! Não havia a menor possibilidade de  convívio. Comecei a cutucar com a vassoura__ que pernoitara ao meu lado, como um sentinela, todos os móveis. Vasculhei cada centímetro do lugar, até que cheguei na pilha de livros que, carinhosamente, ajeito ao lado do sofá, abaixo da luminária de pé. Em cima, coloco uma bela lata de biscoitos vazia,  que alegra este cantinho.
     Quando empurrei o montão de livros, o bicho fez um voo por cima, pousando no chão. Daí passou a correr, desesperadamente, com as suas seis perninhas robustas, em direção à porta de entrada do apartamento.
     Valha-me, Deus! disse, entusiasmada! E com uma garrafinha de álcool em mãos, corri atrás! Lancei o líquido sobre ela , já no corredor. O inseto parou, olhou pra mim, mexeu suas anteninhas  e correu  furtivamente para o apartamento do vizinho japonês, passando por debaixo da porta.
     De início, pensei em avisá-lo, mas como é carrancudo e de maus bofes, me precavi. Já bastava esse tremendo susto por hoje.
    Agora, Carlos me espera para receber o pagamento. Pedi para que o funcionário da dedetizadora caprichasse!... 
    

sábado, 4 de março de 2017

SÓ MESMO DRUMMOND

     Se você é avesso à festa mais popular, o carnaval, e não planejou viajar, na certa optou por atividades variadas, principalmente se mora num bairro agitado como o meu.
     Ipanema era um paraíso, até há bem pouco tempo.  Mesmo sendo um bairro praiano, parecia uma cidade interiorana, com a banca de jornais e o mercado  sempre abertos. Tinha um ar leve, gostoso, logo de manhãzinha. Experimentávamos um frescor, um não sei o quê de puro, de imaculado, além das cantorias dos pássaros.
     Aos pouquinhos, foi sendo transformado. O avanço da modernidade pesou. Na praça Nossa Senhora da Paz, por exemplo, víamos aves de várias espécies que ficavam, à beira do lago, limpo e sereno. Socós, patos, marrecos, garças, savacus, martins-pescadores... Uma riqueza, pra ser observada e protegida.
( Biguá / Phalacrocorax brasilianus)
     Mas não adiantou nem mesmo a interferência de políticos influentes , bem intencionados, como, por exemplo, Gabeira, que comparecia a todos os eventos em prol da Praça.


    E por que isto? Porque teriam   que cortar dezenas de árvores seculares para uma nova estação do metrô ser criada.
( Savacu / Nycticorax nycticorax)
     Mobilizamo-nos. Mas outros interesses  prevaleceram e perdemos assim o contato com aquela belezura natural.
     Já na Praça General Osório , também construíram uma outra estação, mas do lado de fora da praça.Fica na calçada e quando foi inaugurada era um monstrengo, de tão feia! Não sei se reclamaram, o que aconteceu, o fato é que a demoliram e construíram outra, transformaram a estação e ela agora não é mais tão horrorosa.
      Acredito que seja desnecessária, pois na esquina em frente, das ruas Visconde de Pirajá e Jangadeiros fizeram outra! Menor, mais simples, uma boca do inferno nessa época de carnaval.
     Mas, voltando ao assunto inicial... Em quais  atividades  você se debruça quando está em casa? Fica mesmo só deitado, como uma amiga minha? Ou lê? TV é o lazer preferido? Ou você é um daqueles que gosta de aprender  e sempre faz cursos, pesquisa na internet... Se , como eu, aprecia a arte da escrita, ninguém consegue tolhê-lo! Pintura, artesanato, pegar um sol, dar um mergulho, enfim, existe uma infinidade de possibilidades.
     Ficar parado, parado mesmo, só se estiver adoentado. Aí não tem jeito. Mas mesmo assim, pode ouvir alguma música. Ou conversar com alguém, dependendo da situação.
     Conheci, nos meus dezessete anos, num hospital, onde fui submetida a uma cirurgia, uma senhora que tinha amputado as pernas. Chamava-se Olívia. Terna e educada, logo nos afeiçoamos e nos tornamos amigas. Além deste drama, ainda estava com uma doença grave no intestino, aquele mal que aprendi a não pronunciar o nome. Só mesmo Drummond pra fazer um poema extenso ( Versos Negros(Mas Nem Tanto)), repetindo a palavra maldita dezenas de vezes, em mais de uma dezena de estrofes...

" Ao levantar, muito cuidado, amigo.
Não ponha os pés no chão. Corre perigo
se há nylon no tapete: ele dá câncer.
                                                                            ...
À hora do café, não seja pato,
pois tanto açúcar como ciclamato
e xícara e colher, sorry: dão câncer.
...
Páre de trabalhar, enquanto é tempo!
Mas evite o lazer, o passatempo,
que no jardim da folga nasce o câncer.
..."

    Depois que deixamos o hospital, certa tarde , fui visitá-la. Lembro-me bem... recostada num grande travesseiro, de peruca, as unhas feitas, uma leve maquiagem dava um tom saudável ao seu rosto cansado, mas que ela insistia em orná-lo com um leve sorriso! Sempre a sorrir e a expressar delicadeza em seus gestos.
    Como se não bastasse , o destino ainda a feriu com mais um desgosto: seu esposo, com a mesma doença, falecia noutro hospital, longe dela, em virtude das circunstâncias. Seu ambiente era penoso:o filho trabalhava o dia inteiro e ela tinha a companhia de sua nora, uma mulher árida, rude, dura, que cheguei a conhecer, num destes encontros.
     Dona Olívia deixou-me uma marca: Aquela mulher podia escolher o semblante carrancudo, não querer visitas a importuná-la, abandonar-se na cama de qualquer jeito. Não! Simples, disse-me com naturalidade, quando a encontrei de costas apoiadas no espaldar da cama, a escolher feijões: "Cato feijão para ajudar à empregada" .  Ainda que seu sofrimento fosse enorme, ela usava os minutos da vida colaborando, se ocupando e... sempre sorrindo.
     E lia, lia muito. Até me ofereceu um exemplar em que  falava sobre a atitude positiva que devemos manter na nossa vida, aconteça o que acontecer! Que pessoa maravilhosa! Não só se instruía, como também vivia aquilo em que acreditava.
     Deixar um exemplo  tão bom como este e, por isso, ser  inesquecível  para alguém, soa como bênção no caminho.