quarta-feira, 15 de abril de 2020

SOLIDÃO IMPOSTA

     Nesta quarentena em que nos dispomos , no início sem entender coisa alguma, depois,  sonolentos, ansiosos, distraídos, continuamos reclusos. Mais adiante, bem... mais adiante sofremos!
     Percebemos que este vírus é poderoso e tudo começou com um morcego!... Explico: Pelo que dizem e tenho aberto os ouvidos para ouvir bem, lá, na China, bem distante... Comem de tudo!
     Desde morceguinhos sanguinários até ratos! Passando pelas baratas, escorpiões e mesmo formigas...
     Noutro dia vi um vídeo. Ah! Recebo dezenas deles num dia. Não sei vocês, mas deve ser igualzinho. O pessoal está nervoso, têm que se comunicar. E quanto mais torturante, mais divulgado.
     Num destes vídeos, aparecia uma chinesa do campo, bem rude, sem a mínima emoção, devorando um filhotinho de pássaro. 
     Vestia-se simplesmente, mas era truculenta. Alguém filma a criatura ao encontrar um ninho num arbusto , a pegar com absoluta indiferença um dos filhotes e arremessa-lo na boca feia e rugosa já. 
     É de chocar qualquer ser humano! Não demonstrava sentimento. Imune às maravilhas da natureza, saciou a sua fome com o que viu pela frente.
    Aproveitando o meio em que vive, deveria escolher algum capim, algum mato, o joio do trigo, a tiririca, a famosa cicuta... Aliás, com esta, ocorrem os sintomas parecidos do coronavirus, a tal insuficiência respiratória, ou fibrilação ventricular.
     Como hoje não estou para brincadeiras, tento me policiar, ou, melhor, daqui a pouco, entrarei em silêncio e me aprofundarei em mim mesmo. Afirmam os sábios que tudo mudará em nós e em torno. Acredito , esta, sim, é uma verdade poderosa.  
     Assim como a Natureza, pouco a pouco, se recupera dos malefícios causados por nós, seres inconsequentes, recuperemo-nos também, transformando esta situação a nosso favor. Aproveitemos a solidão imposta. 
 
     " O silêncio é essencial. .. Se nossa mente estiver repleta de palavras e pensamentos, não haverá espaço para nós."
 ( SILÊNCIO, Thich Nhat  Hanh)
    
          

segunda-feira, 6 de abril de 2020

REVIVENDO LEMBRANÇAS NA RECLUSÃO

     Nessa reclusão  que nos é imposta, o que mais têm funcionado são as lembranças!
      As más aprendi a rasgar e jogar na caçamba do lixo; no entanto, as boas nos transmitem as mesmas sensações do momento em que as vivemos. Não é assim?
     E é com esta impressão renovada que passo a contar-lhes um momento da minha mocidade, até hoje guardado não só na memória, como no coração.
     O estopim foi a conversa que tive ontem(via whatsApp)com uma amiga de infância. Contava-me ela vários fatos acerca de conhecidos, como pequenas historinhas. No final, perguntou-me: "Gostou da minhas histórias?"
     Não sei bem o porquê quase de imediato, reportei-me à casa de vila, onde fora criada entre pés de sapotizeiro e abacateiros frondosos, abieiros e mangueiras...e o jardim cuidado por mamãe, cheio de flores, desde os jasmins aos flamboyants, além dos medicinais guaco, boldo e erva-cidreira...
    Neste ambiente, os pássaros _ rolinhas delicadas  , pardais aos montes,  sabiás e bem-te-vis  marcavam presença!  E papai tinha uma coleção respeitável: canário-da-terra, o belga, azulão, curió e coleirinho e o bravo pintassilgo, dentre outros.
     Como a nossa casa era a última, vivíamos com a pesada porta de madeira escancarada!
     Certo dia, estávamos na sala, eu e papai nos distraindo com alguma leitura, quando, de repente... um bando de pardais assustadiços, porém organizados em sua manifestação solidária, nos chamou a atenção! Rodavam verticalmente, piando em demasia, na abertura da porta. Foi incrível!
     Levantamo-nos, movidos pela curiosidade, certos de que haveria um bom motivo para aquela manifestação assombrosa.
     Chegamos à porta, os pardais se dispersaram pelo jardim e vimos, assustados, que um gato amarelo, enorme, preparava-se para dar um bote certeiro nos pássaros de papai.
     Em domingos de sol, meu pai posicionava as gaiolas num muro baixo, que ficava entre o jardim, à frente da casa, e uma pequena área lateral.
     O malandro não gostou nada, nada do aviso dos pássaros! Demorou a sair dali. Papai, com voz e braços, tentava, desesperadamente, demovê-lo do intento... Até que, finalmente, o felino foi embora.
     Contei para a minha amiga Ana deste ocorrido. " Ufa! Que história!", disse-me ela, ainda com a respiração suspensa... 
    
      

    
    
    
    
    

sexta-feira, 3 de abril de 2020

EM QUARENTENA

     Não faz muito tempo, fui assistir a um filme na Casa de Cultura Laura Alvim. Depois, o cafezinho de praxe, com um casal amigo,  numa das mesinhas dispostas com graça, ao lado das salas de cinema.
     Inúmeras manhãs caminhando pelas areias limpas e macias de Copacabana! Especificamente no Posto Seis! Cedinho, o ar fresco ainda, gaivotas e biguás numa disputa pelos peixes! Eu me lembro até do socó, pousado numa das  amendoeiras na Colônia dos Pescadores, observando a movimentação. E a Capelinha ... E a peixaria...
     Os peixes miúdos e coloridos_ eram muitos!, nas águas de Ipanema... A beleza única do Arpoador... Quantas e quantas vezes ia até o alto da Pedra, apreciando todo aquele mar , aquela imensidão...
     No Forte de Copacabana, dizia e ouvia poemas  em reuniões literárias admiráveis.
     Um pensamento puxa outro... como contas de um rosário. Quanta vida tínhamos! Quantas chances de atividades!
     De vez em vez, uma visita a um Museu. Que prazer! E o passeio inaugural que fiz, com um amigo, na Academia Brasileira de Letras deixou marcas!
      Viagens, Cursos, Recitais, encontros com amigas para o bate-papo acompanhado do lanchinho farto, pelas galerias de Ipanema...
     Inesquecíveis passeios cheios de glamour pelas alamedas do Jardim Botânico, eternizados pelos poemas que compus...

MOMENTO ENCANTADO NUM JARDIM
 
A Natureza pródiga estende
Um tapete vermelho carmim
Submisso, a meus pés.
A cada minuto, um eco
Da tinta rubra que cai na tela
Da terra barrenta.
 
Tem um cheiro gostoso...
É um não sei quê de suave e doce...
 
E o som continua a espocar.
 
Estamos sós. Eu e os jambos.

     Lá, no Jardim, pintei, fotografei e aprendi a observar pássaros.
 
    Isso sem mencionar  fatos mais antigos, reminiscências mais remotas...
       Agora, longe os amigos, nenhum passeio, praia nem pensar, cafezinho só os daqui de casa e conversas pelo WhatsApp!
      Em quarentena,  restam-me as lembranças e a criatividade. Novos planos, crônicas no Blog, haicais e  fotos tiradas da janela... Os pássaros continuam por perto...
 
(gavião-carijó)
 

domingo, 29 de março de 2020

A FRAGILIDADE HUMANA

     Como passaremos estes dias, nas nossas casas?...
 Canta o azulão
prisioneiro na gaiola
Eu canto haicais
 
     Primeiramente nos lembremos de que temos um lugar para ficar! Podemos torna-lo mais prazeroso para habitá-lo: enfeitar, harmonizar, limpar_ ações que nos ocuparão e nos tornarão, por alguns momentos, focados e felizes; nossa casa pode ser o nosso lar, numa atmosfera aconchegante, mesmo se estivermos  sós; fazer com que a nossa casa seja o nosso reflexo, um lugar seguro como uma fortaleza.  
Detido o corpo em casa
mas o pensamento livre
Voo para onde quiser!
   
   Existem citações que nos reportam à alegria de estarmos na nossa casa. Vejam só:
" Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz..."
" É o mais feliz, seja ele rei ou camponês, aquele que encontra paz em seu lar."
" A melhor maneira de prender os filhos em casa é fazer do lar um lugar agradável."
" A casa de um homem é o seu castelo."
" Quem vai para casa, não se molha."
     E eu completaria, dizendo: não se molha e não contrai o vírus!...
     Hoje cedo assisti o vídeo de um Guru, assinalando para ficarmos em nossas casas! Esta será a única maneira de diminuirmos o impacto desta tragédia.
     E a prezadíssima Monja Cohen também assegurava, em vídeo, um tanto alterada por algumas atitudes inconsequentes de certas pessoas, para nos mantermos no refúgio do lar.
   Remexendo as redes sociais, observamos inúmeras manifestações de pensamento. Há os que sempre acham tudo muito engraçado, apesar das mortes em massa, do desespero e da falência da nossa sociedade; os que se baseiam em mensagens espiritualistas, garantindo momentaneamente a paz mental; os que nos acenam com possível antecipação do fim do mundo e se atordoam.
     Como já carrego no corpo físico algumas décadas, dou-me o direito de tentar planar em outras estruturas mentais, em diferente sintonia. Viajo com a Poesia... Acato Cecília, me deleito com Quintana, relaxo com Manoel de Barros, me instruo com Alberto Caeiro, me encontro com o saudoso passado em Cora Coralina e por aí vai...
     Neste cenário quase de sonho, acrescento a boa música,  como por exemplo as regidas _diariamente_ pela OSBA, sempre às 19h, no Youtube (Cine Concerto) com canções eternas de belos filmes!..´
     Que cada um planeje seus dias, com coerência. A vida é valiosa para nos perdermos em desespero, que não nos leva a nehuma solução. 
     O que nos resta a fazer é obedecer às autoridades competentes e à nossa própria consciência: Fiquemos em casa! É por um período. Para garantir a continuidade da vida.
     No confinamento
releio poemas em vídeos _
Coronavirus
       
 

sexta-feira, 13 de março de 2020

VOCÊS CONHECEM CECÉU?

    
      Assim como eu, nasceu num domingo! No interior da Bahia, em 14 de março de 1847, estreou (na Bahia, não se nasce, se estréia!) Cecéu, filho de  família abastada e culta.
     Antônio Frederico de Castro Alves  espalhou sua genialidade em apenas 24 anos. Sua morte_ em Salvador, foi causada pela tuberculose e pela amputação, sem anestesia_ de um pé , em virtude de um grave ferimento numa caçada. Caçada esta na qual ele não fez nenhum disparo...
     Seu sofrimento foi inenarrável e, mesmo assim, continuava a sua produção, cheia de romantismo, de arte, de intenção social.
     Nunca o desqualificou o seu eu inflamado! Gostava de falar suas ideias às multidões, em praças, locais públicos, em teatros.
     Amou muitas mulheres, teve paixões por cantoras italianas e com uma delas , romântico que era, fez o derradeiro passeio equestre ao Farol da Barra, sob o luar, em maio de 1871_ ano da sua morte(morreu em julho).
     Seus restos mortais encontram-se no monumento feito em sua homenagem, pelo escultor italiano Pasquale de Chirico, na praça Castro Alves.
     Para mim, o mais comovente são seus poemas que se debruçam sobre a tragédia do tráfico de escravos. Vê-se toda a sua revolta ante fato tão hediondo da nossa História.

do único livro que chegou a publicar em vida( ESPUMAS FLUTUANTES), um pequeno trecho de Mocidade e Morte...
"Oh! Eu quero viver, beber perfumes
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh'alma adejar pelo infinito,
Qual branca vela n'amplidão dos mares.
..."
 
e na segunda parte do livro CASTRO ALVES Melhores Poesias, sobre Os Escravos, lemos O navio Negreiro, da qual retiro um pequeno trecho...
"...
Desce do espaço imenso, ó águia do oceano!
Desce mais, inda mais... não pode o olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador.
Mas que vejo eu ali... que quadro de amarguras!
Que cena funeral!... Que tétricas figuras!...
Que cena infame e vil!... Meu Deus! meu Deus! Que horror!
..."
 
 
 
 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

TUDO COMEÇA COM O PRAZER

     Sabe aquele dia em que você acorda cheia de ideias? Pois é. Hoje foi assim. Só que acordei _ com ideias borbulhantes, tomei banho, alonguei-me, meditei e preparei um delicioso breakfast, sorvido com prazer na varanda.
     Então percebi que o jasmineiro_ apesar de  cheinho de folhas novas e reluzentes... mostrava-se incapaz de se desenvolver: em cada broto, uma mancha branca e folhas recém-nascidas tortas.
     Preparei-me para o bom combate: muni-me de uma misturinha de pouca água e sabão de côco. Passei, pacientemente, naqueles brotos adoentados com um perfex. Molhei todas as plantinhas. Preparei mudas... enfim, estava tão calma que as tais "ideias borbulhantes " se aquietaram todas.
     Entrego agora a você, que me lê com tanto carinho, somente um pensamento que se avoluma e se fortalece: para sermos felizes, basta um pouco de terra, alguma planta , o fundo sonoro de  passarinhos, e sabermos lidar com outro ser vivo.
     Enquanto a convivência com o ser humano, às vezes, se torna quase impossível, ante as diferenças do sentir, a dica é que nos voltemos para outro ser vivo: Um animal_ os pássaros me animam!, ou mesmo uma planta, principalmente se precisarem da nossa atenção e dos nossos cuidados.
     Os bichos se entregam, com confiança e gratidão; enquanto as plantas nos oferecem seu frescor e vitalidade.
     Há algumas que até nos protegem  contra o mau-olhado e a inveja _ é o caso da avenca, do alecrim, da guiné, da arruda, das espadas...
     Outras nos enternecem pelo seu perfume: são  assim o jasmim, as rosas, a lavanda, dama-da-noite(Ah! o jardim da minha infância!), o lírio...
     E existem as que somente nos ofertam sua beleza e singularidade, como a onze-horas!
     De qualquer modo, é bom aprender com esta natureza que nos cerca, espontaneamente : Tentar dar  atenção e carinho sempre. E se alguém pisotear, maltratar, continuar, mesmo machucados, na doce faina do destino. 
 
    
    
    

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

DESEJOS INCONFESSÁVEIS

    
    Tenho pensado muito sobre o que importa , realmente, na longa( ou curta...) estrada da vida.
     Trabalhar, casar e constituir família, estudar, viajar?...
     Para o mosquito que me ronda agora, o importante é o alimento vindo do meu sangue... Mas o aniquilo antes que ele alcance sua meta!
     Aliás, ouvimos muito: alcançar metas! Que metas? Digo que isto vai depender da idade, da condição social, econômica  e também da etapa de vida em que estamos.
     Casar, constituir família poderá ser um osso duro de roer! Depois de uns poucos anos de alegria, o cenário talvez se modifique, a conduta se altere e haja religião para ajudar na superação de um  relacionamento odiento, muitas vezes!
     Nem tudo são flores. Apesar de todo um planejamento para que a vida a dois seja repleta de bênçãos e alegrias, não é bem assim que acontece. Incompreensões, infortúnios, traições, bizarrices...
     Mas ainda existem _e como! , aquelas pessoas que fingem aceitar, porque, intimamente, acham que não têm eira nem beira. Preferem levar uma vidinha medíocre a se rebelarem e colocarem um ponto final  à relação desgastada ou maléfica.
     Viver com outra pessoa não é fácil. Porque ela vem com o pacote: Imperfeições, complexos, desvarios. E, somente aos poucos, a sua personalidade vai sendo desvendada.
     Uma antiga amiga confessou-me os desejos pervertidos do seu marido(geralmente estes tentam aparentar uma expressão solene, séria, circunspecta).  Contou-me  aflita. E disse-me em lágrimas que havia concordado "para que ele não procurasse na rua" o prazer depravado ...
     Calei-me. Opinar o quê se ela já tinha dado a solução? Só queria desabafar. Tentei ouvi-la com carinho , atenção e uma dose de piedade.
     De acordo com o prof. Karnal , indiscutivelmente estudar com afinco, trabalhar com dedicação e viajar acrescentarão à alma aquelas condições necessárias para que a felicidade reine e a inteligência seja aguçada. Acredito nisto.
 
     " E quando o trem passa por esses ranchinhos à beira da estrada, a gente pensa que é ali que mora a felicidade..."