segunda-feira, 30 de julho de 2018

CONVERSA COM UM ESTRANHO

     Insisto. Reinicio a conversa com o motorista do aplicativo. Tímido o senhor, cabeça grisalha, muito magro, contudo, de  olhar perspicaz.
     Aos poucos, se entrega, contando a sua vida, como em diminutos capítulos... Homem de vocabulário restrito, mas com uma inteligência apurada. E acertei na minha precária análise. Vejam só:
     Formou filhos com o antigo emprego de técnico de enfermagem. Trabalhara em dois hospitais e uma clínica. Gostava da sua profissão. Dedicara-se a ela com afinco.
     Agora estudava mais e tinha pretensões de avançar nos estudos, galgar uma universidade, quem sabe? Vontade ele tinha de sobra! E coragem para enfrentar quaisquer dificuldades a fim de alçar voos mais altos...
     À medida que narrava seus planos, seus olhos brilhavam mais! E o sorriso, antes tímido, estampado no seu rosto, agora, como um luzeiro de alegria.
     Nordestino, cabra macho, cabra forte, cabra bom, acostumado às intempéries. As próprias adversidades o fortaleceram.
    Começáramos o papo falando sobre idade, tempos idos, vida passada. Mas, na realidade, o que eu presenciava ali era um entusiasmo juvenil  sobre a vida que está por vir!... Um terremoto de emoções  afloravam e davam àquele homem um vigor extraordinário!
     Todas as possibilidades presentes naquele coração, engrenadas na rota do destino que nós mesmos construímos, passo a passo.

 
"...
Como pode alguém
Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio de tamanha dignidade?
..."
(Quintana, If...)

domingo, 15 de julho de 2018

UM SONHO ESSE NOSSO MUNDO

    
 
     Quer sentir-se amado? Quer fazer desabrochar o amor dentro de si? Quer perdoar, encher-se de paz e descobrir a beleza? Pois, afinal, "algo de belo é alegria para sempre"(A thing of beaty is a joy for ever...1)?
     Você pode ler algum livro místico, algo que levante sua alma. Que o oriente com certezas("...Quando somos capazes de relaxar e abandonar o irrelevante, o que nos resta é a essência nua_ a autêntica natureza de Buda interior..."2). Você pode entregar-se a uma religião e vivenciá-la entusiasticamente ("... Procura encontrar diariamente uns minutos dessa bendita solidão que tanta falta te faz para teres em andamento a vida interior...!) Ou, simplesmente, pode mergulhar no mundo sem disfarces da natureza.
 
     Nós todos pertencemos a este mundo e, pouco a pouco, com a passagem da vida, nos distanciamos dessa engrenagem perfeita. Iludimo-nos em mil cogitações e inúteis desejos sem fundamento.
     Aproveite os seus momentos de solitude e aprofunde seu auto conhecimento. Já lhes adianto que é uma conquista dificílima!
     A máscara do ego teima em se manter. Aliviarmo-nos das cascas que encobrem a nossa verdadeira natureza é algo estimulante, porém necessita de atenção, persistência e sinceridade.
     Há virtudes imprescindíveis que devíamos obter para alcançarmos, de uma certa maneira, a libertação. Sinceridade é uma delas. A sinceridade consigo mesmo.
 

      Os Degraus
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos_ onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...4
 

 
     OPS! 1- poeta John Keats
               2- Lama Surya Das
               3- Mons. Josemaria Escrivá
               4- poeta Mário Quintana


terça-feira, 10 de julho de 2018

"PENSO, LOGO EXISTO"

     "...
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
...
Haver injustiça é como haver morte."
 
     Cedo ouvi atenta as palavras sempre coerentes e sensatas da jornalista Miriam Leitão, no jornal da TV, onde expôs seu comentário sobre as opiniões dos brasileiros no tema criado pela Globo: O Brasil que eu quero.
     Admirada estava com a lucidez do povo, de todos os rincões desses brasis tão amados... A diferença social  e a cultural não anulam a perspicácia e inteligência de todos,  em suas declarações sobre o nosso país. Afinal, já dizia o poeta: " Amar é pensar."
     Enfaticamente se pronunciam, sobre as mais diversas questões, cercados pelas belezas,  paisagens e História da nossa terra.
 

     Anunciam desejos de mudanças, em vários setores, especialmente na Educação e formação do povo.
     Tenho prestado atenção nos meus papos com os motoristas de táxis. Acontece mais ou menos a mesma revelação. Todos(ou, pelo menos, a maioria) refletem com absoluta maturidade sobre a atual situação política do país. Sabem se colocar, se expressar com sabedoria.     
     É por isso que acredito nesta afirmativa: "Todo ser humano é potencialmente filósofo."
      Há em cada um de nós,  acredito,  a semente para a vivência com compreensão e felicidade.
     Dito isto, relaxemos a mente, ante o poema de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa):
 
  As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
 
Algumas mal se veem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.
 
 
 
    
    
    

quarta-feira, 6 de junho de 2018

MUITO PRAZER, GILKA!

     Estou num box,  dessas lojinhas  com computadores, onde um amável jovem me instruiu para que eu avançasse na página. Sempre há um empecilho ou outro para confundir a gente...  Isto feito, cá estou, ansiosa pela escrita, noutra cidade, mais pacata do que a minha: Salvador! Cidade exaltada por Pancetti, o marujo pintor, que ficou extasiado ante a luz e a alegria que encontrara. Suas marinhas ganharam mais vida, após sua chegada por essas bandas.
    Pensava que a viagem transcorresse sem novidades, mas, qual o quê! Sempre  vem acompanhada de um fato  inusitado, algo que me faz refletir.
    Desta vez, sentei-me ao lado de uma senhorinha, aparentemente sossegada, como disposta a dormir em pleno voo. Nada disso! Logo  revelou-se uma falante de primeira.
    Começou devagarinho, como quem não quer nada e, devo confessar que eu a estimulava, a cada fato contado, com uma expressão de entusiasmo.
    No início do voo, chegou a dizer-me, simpatiquinha: " Olhe, agora, fique quietinha, pois gosto de orar quando levanta voo."
    Senti-me um tanto acanhada, já que falara pouco, coisas corriqueiras, o porquê daquela poltrona, o tempo, banalidades. Pensei então que talvez fosse rezando pela viagem...
     Enganei-me redondamente. Falou tanto que perdendo quase o fôlego, sentiu um calor anormal, sorria muito e segurou meu braço várias vezes, atropelando-me inúmeras falas, inibindo-me. Não. Já não tinha vez, já não era mais um diálogo, uma conversa, tornou-se um veemente monólogo!
    De origem simples, como ela mesma declarara, morando na roça, perdeu a mãe cedinho e teve uma boa madrasta que a estimulou a estudar, coisa de que o pai não fazia questão. 
    Formou-se no magistério, trabalhou, casou-se, teve filhos. Viúva, chegou a reatar com um antigo namorado que tinha o dom para a poesia,mimando-a com vários poemas e trovas, quase todos recitados entusiasticamente para mim! Um bom enredo para novela!
    Saí do avião exausta, já que, como dormira mal à noite , planejara relaxar durante a viagem. Mas, por outro lado, sempre é um privilégio encontrar alguém que confie na gente para se expressar, para se soltar, fazer revelações, confidenciar sentimentos. 
    Portanto, no final das contas, foi boa a nossa 'conversa' e percebo, a cada dia que passa da minha vida, como as pessoas sentem-se sozinhas! Quantos sentimentos guardados, quantas ideias prontas a se expandirem, quanto desassossego...
    Desejo que esta minha  amiga de infância realize ainda sonhos, tenha saúde  e o uso constante do cigarro não a leve antes do tempo certo... Muita vida pra você, Gilka!
   
    
    
   
    
    

segunda-feira, 14 de maio de 2018

VAMOS PASSEAR NA PRAÇA?

     " A praça está silenciosa; ali se
repousa a manhã.
..."
( F. Nietzsche)
     Pois então... votei nele, no candidato à prefeitura, em tempos idos, porque prometeu, veementemente, dentre outras coisas, cuidar das praças do Rio de Janeiro. Que faria de cada uma um lugar aprazível e seguro para as famílias se beneficiarem. Votei nele, votei em César Maia.
     Da mesma maneira da atual prefeitura que, em  discursos de voz mansa e gestual aparentemente conciliador, prometia cuidar das pessoas...
     São os velhos hábitos da fala corriqueira dos políticos(politiqueiros?) que insistem em manobrar os incautos cidadãos com promessas que não sabem e/ou não podem /ou não se empenham em cumprir. Pelo menos é o que parece acontecer e desde sempre.
     Mas o que gostaria de derramar em palavras hoje é a minha indignação, sobre o que vimos pela manhã: Uma praça devastada. Uma praça que tem tudo para ser linda, tanto pelos jardins , quanto pelas esculturas que abriga. Uma praça que pedia para ser admirada!...
 
        Vejam só: lá existe uma obra de arte que poderia ser apreciada e valorizada: o Chafariz das Saracuras ,  de 1795,  criada para decorar o antigo Convento da Ajuda,  na atual Cinelândia. Foi feita por um grande artista brasileiro_ Mestre Valentim!
      Trata-se de um obelisco sobre uma bacia de granito com quatro saracuras de bronze, de onde jorrava água.
PRAÇA GENERAL OSÓRIO
Secaram o lago...
Estancaram o chafariz...
Roubaram as recatadas saracuras de bronze.
 
Numa dessas manhãs estáticas
                      porque sem brisas,
O socó reverenciou o Mestre Valentim
Fazendo um pouso forçado à beira do tanque.
 
Neste pobre cenário,
Nenhum canto afinado
Nenhum grito abafado
                        Ou aflito.
Nada.
 
Apenas a própria praça...
(_Que desgraça!)
...desfalecida.
 
Sem grama, sem graça.
(Sylvia Mercadante)
     Já faz um bom tempo, quando, por volta das sete horas da manhã, ao atravessar a Praça General Osório, vi, no pequeno lago do chafariz, um socó-dorminhoco(Nycticorax nycticorax). Foi o meu primeiro registro desta bela ave.
 
     Algum tempo depois, consegui identificá-lo no Jardim Botânico e noutra praça, a Nossa Senhora da Paz. Aliás,  no Jardim, existem quatro esculturas de Mestre Valentim: a Ninfa Eco e o Caçador Narciso, que são as primeiras esculturas fundidas no Brasil e ainda  duas aves pernaltas.
     Atualmente, na praça General Osório, não jorra mais água no chafariz . E as únicas aves que vemos são os pombos nos galhos dos mirrados arbustos, a esperarem pelo  milho que alguns velhinhos lhes trazem.
     Muitos mendigos ali se banhavam  com balbúrdia e ainda insistem em  viver na praça;  fazem de tudo, se é que em entendem. Hoje vi um defecando atrás de uma touceira.
" e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
...
(Mario Cesariny)
     Os jardins, antes forrados de grama verdinha, com variadas plantas e arbustos viçosos, estão totalmente danificados. O gramado sumiu. Machucado, pisoteado, com excrementos de gente e de cães, uma tragédia já prevista com tanto descaso e falta de policiamento austero e preparado para manter ordem e limpeza.
    A nossa cidade precisa urgentemente de um povo consciente, educado, que estude, que aprenda, que passe a  sentir amor por onde vive e, assim, preserve e cuide.
" Na ampla praça há apenas plátanos.
Nem crianças a correm de tão fria,
nem estátuas a comovem bronzeadas.
..."
(E. Guerra Carneiro)
     Como poderíamos reverter esta situação? Se não houver vontade firme e atitude radical, a praça definhará cada vez mais e entrará em extinção. E tantas outras da nossa cidade, antes maravilhosa...

Ops! Mestre Valentim_ !745- 1813 ; filho de um fidalgo português e de uma africana. Um dos artistas mais originais do Rio de Janeiro.

Ops! saracura (Aramides cajanea)_ uma ave colorida, de pernas longas, presente em todo o Brasil.
 
Ops! plátano : árvore, cuja madeira é usada em compensados
      
    
    
    
    

quarta-feira, 9 de maio de 2018

PARA COMEÇAR O DIA

     Ela foi caminhar um pouco. A manhã estava sem nuvens, somente algumas esgarçadas rosadas, como fragmentos ralos. Deteve-se no calçadão. Afinal, havia um banco livre, à sua espera. Um desses de cimento, sem encosto, bem tosco.
     Quase chegando, um cãozinho pula nele. E o dono admite, com um  breve piscar de olho. Ela não desistiu. Sorriu com o seu melhor sorriso , para o homem, que ficara de pé e para o seu cão, já sentado e olhando-a fixamente, com um rosnado leve e constante. Ficaram alguns minutos assim e logo foram embora.
     Pois não titubeara. Queria tanto apreciar o mar! E não seria um mal-humorado  pitbull que ia impedi-la! A paisagem marítima fica deslumbrante em tempos de outono. O ar leve e um brilho fulgurante, límpido, se destacam.
     Ficou ali por um bom espaço de tempo, até sentir todo o seu corpo aquecido e sua alma recheada de bem-estar. Lembrou-se do místico indiano Inayat Khan(1882-1927): " Todas as coisas existentes que vemos, ouvimos e percebemos, vibram. ... é a vibração que faz as árvores crescerem, os frutos amadurecerem, as flores desabrocharem... a existência do nosso corpo, pensamentos e sentimentos."
     E continuou a observar tudo à sua volta. E a sentir toda aquela refrescância como uma libertação e um aprendizado.
     Ao longe, um barco de pesca balouçava, suave e, na areia, bem embaixo de onde estava, uma simpática lavadeira-mascarada(Fluvicola nengeta) emitia seus trinados e saltitava sem parar. À frente, no  momento em que uma onda se agigantou,  alguns pássaros mergulharam, parecendo tão felizes! Vinham de longe, em bando comprido,  voando rápido.
 
     No alto, acima dela, várias fragatas( Fregata magnificens) rodopiavam, talvez estivessem presas, por instantes, numa roda de ar quente. Voavam baixo e ela pode observar os machos e as fêmeas naquele bailado ininterrupto e singular.
    " O que mais poderia desejar nesta manhã? ", pensara. Nada mais. Estava tão satisfeita que resolveu, então, regressar para casa e tomar o seu café .
    
    
     

terça-feira, 1 de maio de 2018

SAI ABRIL, ENTRA MAIO...

     Sai abril, entra maio. E, com o mês de maio, as farturas das  promoções. Salve o Dia das Mães que, depois do Natal, é o mais cotado em vendas no comércio!
     E mãe sempre espera a boa conduta do filho, a sua lembrança.
     Dia desses, vi na TV uma reportagem elaborada num asilo de senhoras; aquela porção de idosas, olhar perdido, mãos trêmulas, lábios ressequidos, cabecinha branca a falar sobre a alegria da maternidade.
     Tive uma amiga que dizia que sentia muita piedade dos idosos. Admirei-me. "Eu não." Ela surpreendeu-se e lembro até hoje da sua expressão de espanto e incredulidade. "Como não sentir pena dos velhinhos? Olhe lá, olhe lá aquela velhinha na outra calçada", disse-me na ocasião.
     Olhei e realmente vi uma senhorinha andando devagar, meio curvada e não estranhei. Afinal, a velhice nos trata assim... Perdemos a agilidade costumeira, o viço de outrora, a espontaneidade.
      Por outro lado... traz-nos  uma compreensão maior da vida, a dilatação da consciência, a sabedoria. Então... por que nos apiedarmos deles? Não! Mil vezes sentir orgulho_ afinal, estas pessoas contribuíram para a sociedade e vibrar de alegria por terem vencido tantas dores e ainda estarem de pé, animados, optando pela vida!
     Mas no caso das mães abandonadas nos asilos é de cortar o coração tanto descaso, provocado por tamanha penúria sentimental  dos filhos.
     Os que maltratam suas mães , estes sim, serão dignos de piedade! E quando digo maltratar, penso em abandono também. Quantas daquelas velhinhas se queixaram por nunca mais receberem a visita dos filhos; quantas enfatizaram que desejavam somente um abraço no Dia das Mães! Ficavam idealizando a chegada festiva e todas disseram que, com a presença deles pelo menos neste dia especial, toda a dor da mágoa seria apagada.
     Coração de mãe é assim: esquece as maldades dos filhos egoístas porque veem neles aquelas crianças puras e meigas de outrora. E ficam assim, à espera, sempre à espera que despertem para receberem mais uma vez a bênção que, certamente , os libertarão da dor profunda do arrependimento .
    
   MINHA MÃE
Tremulam as mãos magras
Que já afagaram tanto...
Maternas mãos que me embalaram...
Frágeis agora,
Tão ágeis e macias outrora!...
 
Mãos hábeis, cuidadosas,
Fraternas, amorosas,
Mãos ligeiras, protetoras
De quem ao labor se afeiçoara.
 
Mãos amigas.
Ah! Mãe...
É bom ver-te assim,
Com esse sorriso esboçado
Num rosto quase iluminado
Por tantas emoções!...
 
Tomar-te as mãos em minhas mãos
E poder fazer-te sentir
O frêmito palpitante
De meu grato coração!...

 (publicado no livro  Fragmentos da Memória, de minha autoria)
.........................................................................
ops!
Havendo interesse em adquiri-lo, favor entrar em contato  comigo neste Blog