quarta-feira, 22 de agosto de 2018

O MELHOR DA VIDA

    

     Justo ontem , que estava cansada e louca pra chegar. Justo ontem o motorista pediu-me pra encontra-lo na esquina, senão teria que dar uma volta grande no quarteirão e, com todo aquele trânsito...
     Concordei, não de imediato, mas concordei. Seu tom era amistoso e gentil, educado. E valorizo, cada vez mais, a educação. Lá fui eu, andando, passo não tão firme, não tão ritmado como antes.
     Fiz bem em retribuir com a minha aquiescência. "Vamos lá", falei com os meus botões, tentando animar-me!
     Jovem, boa aparência, discreto o motorista do aplicativo. E nas minhas viagens, como sempre fico atenta às palavras, ao conteúdo do que me é dito, não foi diferente neste caso.
     Diferente de alguns poucos que reclamam, azedos, da situação e dos próprios problemas_ como se o resto do mundo não os enfrentasse também, este entusiasmava-se à medida que discorria sobre a sua ocupação.
     "A vida é boa e nós podemos fazê-la sempre melhor.
E o melhor da vida é o trabalho.
..."
     Este verso da incomparável poetisa Cora Coralina seria naturalmente o que mais define este rapaz. Sua ânsia por trabalho era evidente. E estas descobertas me entusiasmam.
     Quando comentei sobre o aumento dos preços no aplicativo que costumo usar, ele logo sugeriu outros dois e garantiu-me a qualidade. Até porque os conhece muito bem. Trabalha com afinco nos três!...
     Isto gerou em mim admiração. E já que estamos num momento crítico de muitas desilusões na sociedade em que vivemos, restou-me contemplar e aplaudir o jovem Eli na sua disciplina e comportamento exemplares.
"...
Aqueles que acreditam
caminham para a frente
e podem ser chamados
Ludovico, Kubitschek, 'Eliaquim'
..."
(Cora Coralina)
 
    
 
 
     
 
     

terça-feira, 7 de agosto de 2018

TOLERÂCIA ZERO

    
 
     Cada um é o que é; difícil mudar, deixar cair a ficha.  Levamos, no coração, as paixões, os desejos, o orgulho sem freio, a vaidade que atropela e todos os outros fardos  como casacas pesadas .
   Já vi pessoas de bem palestrarem sobre assuntos espiritualistas cheios de empáfia! Outros distribuírem míseros brindes em orfanatos e propagarem sua ação como exemplos a serem seguidos,  alguns em núcleos religiosos perseguirem e difamarem...
     Fora aquilo que não se ostenta:  o pensamento odiento, a raiva e a inveja camufladas em gestos aparentemente gentis, a maledicência.
     Dizia o saudoso médico psicanalista, DR. Lauro Neiva, que a inveja funciona como um arremesso do mal, um feitiço.
     Talvez por isso, Chico Xavier declarou, numa de suas suaves e esclarecedoras entrevistas que , às vezes, vinha falar com ele uma pessoa bonita, bem vestida, elegante, no entanto, pela sua mediunidade, ele via, claramente, imagens alucinantes a sua volta,  mostrando, assim, a realidade daquele visitante.
     Entristeço-me quando vejo idosos ainda cheios de conflitos. Não aprenderam a viver.
      O grande médico indiano Deepak Chopra afirmara a um dos seus pacientes que o esperava , no leito agonizando quase, "Ah, Doutor, o senhor me fez compreender a morte. Aprendi a morrer. Estou tranquilo. Obrigada." Dito isto, deu o  último suspiro.
     O médico, no entanto, ao relatar este fato num de seus livros, confessa que preferiria mil vezes que aquele paciente tivesse dito: " Ah, doutor, vou em paz e reconheço que finalmente entendi a vida. Aprendi o que é viver!"  
     Cada um com seu jeito. No último domingo, bebendo água de côco num desses quiosques de praia,  veio até a mesa em que estava uma velhinha nada simpática... carrancuda, testa  franzida , olhar inquieto, mãos trêmulas por puro nervosismo.
     Brigou com o rapaz que a serviu, tentei ajuda-la com o tal canudinho que ela não conseguia retirar do plástico que o envolve.
      Resolvido o pequeno problema, dá um ligeiro gole mecanicamente e dispara: " Meu filho não queria que eu tomasse meu côco. Ora, bolas! Se tomo todos os dias, só porque ele está me visitando, não deixarei de fazê-lo!..."
     Sorri para contê-la um tanto, mas não adiantou. Ela continuou a esbravejar e a contar as palavras duras e feias que dissera ao filho, se gabando. Eu retruquei: "Nossa, se eu falasse assim com um filho meu, certamente ele ficaria magoado por muito tempo."  
     Nisso, resolveu ficar de pé! Então retrucou ferozmente: " Mas seu filho não a provoca como o meu me provoca!"
    Novamente sorri, já meio desanimada, e tentei dissuadi-la do rancor: Jovens são assim mesmo, falam exaltados sem pensar muito...
     "Jovem?", gritou. Ele tem 45 anos!...", esbravejou enfaticamente!...Minha tentativa de acalmá-la foi por água abaixo...
     Disse isto e tratou de caminhar ao encontro dele, presumo, numa passada rápida ,  mas cambaleante, de cara fechada e de compromisso zerado com a paz. 
    
    
     

domingo, 5 de agosto de 2018

TÔ INDO PRA SÃO PAULO !

     O filho da minha vizinha quis bater as asas... explico: Estava calmamente vendo um vídeo no You Tube quando, repentinamente, levantou-se da sua pequena cadeirinha, esticou os pezinhos para alcançar a chave da porta do apartamento e tentou_ sem sucesso, abri-la. Ele é bem pequeno, de olhos castanhos , cabelos loiros e  fortinho, uma graça! Tem apenas três aninhos.
     Minha amiga saiu da cozinha para ver do que se tratava e ficou pasma com tanta ingenuidade, confiança e liberdade!
     Olhou para a mãe e disse, sério:"Mamãe, tô indo para São Paulo, ver o Lucas Netto. "
     " Hã?" interpelou a mãe, meio aflita, meio sorridente..." Posso saber por quê, rapazinho?"
    E ele, já com a resposta na ponta da língua: " Vou levar a Cuca(a cadelinha) e Gatinhoso pra ele conhecer." Mas, disse a mãe, " nosso porquinho-da-Índia morreu, não lembra? Nós até o enterramos!..."
     Foi como uma catástrofe! O pequeno caiu num choro de dar dó. Chorou, chorou... até que colocaram um filminho de super herói na TV. Sossegou, finalmente.
     Mas vejam só o que acontece quando o cara (publicitário) é jovem , sagaz e traz consigo aquela alegria contagiante do... carioca! Acabei de ver um vídeo dele. Fiquei curiosa.
      Vende facilmente qualquer produto. Monta uma historinha, dá uns conselhos no fim(Talvez acreditem que seja programa educativo...) e no meio, ou seja, no conteúdo, apresenta os brinquedos, habilmente inseridos no contexto, mostrando como funcionam. E grita. Como grita!
     Talvez seu modo de dizer as coisas berrando seja um dos motivos pelo qual atrai a criançada. Vai saber!?...
    Mamma mia! Se fôssemos crianças agora... do quê nos livramos!...
    
    

segunda-feira, 30 de julho de 2018

CONVERSA COM UM ESTRANHO

     Insisto. Reinicio a conversa com o motorista do aplicativo. Tímido o senhor, cabeça grisalha, muito magro, contudo, de  olhar perspicaz.
     Aos poucos, se entrega, contando a sua vida, como em diminutos capítulos... Homem de vocabulário restrito, mas com uma inteligência apurada. E acertei na minha precária análise. Vejam só:
     Formou filhos com o antigo emprego de técnico de enfermagem. Trabalhara em dois hospitais e uma clínica. Gostava da sua profissão. Dedicara-se a ela com afinco.
     Agora estudava mais e tinha pretensões de avançar nos estudos, galgar uma universidade, quem sabe? Vontade ele tinha de sobra! E coragem para enfrentar quaisquer dificuldades a fim de alçar voos mais altos...
     À medida que narrava seus planos, seus olhos brilhavam mais! E o sorriso, antes tímido, estampado no seu rosto, agora, como um luzeiro de alegria.
     Nordestino, cabra macho, cabra forte, cabra bom, acostumado às intempéries. As próprias adversidades o fortaleceram.
    Começáramos o papo falando sobre idade, tempos idos, vida passada. Mas, na realidade, o que eu presenciava ali era um entusiasmo juvenil  sobre a vida que está por vir!... Um terremoto de emoções  afloravam e davam àquele homem um vigor extraordinário!
     Todas as possibilidades presentes naquele coração, engrenadas na rota do destino que nós mesmos construímos, passo a passo.

 
"...
Como pode alguém
Apresentar-se ao mesmo tempo tão humilde e cheio de tamanha dignidade?
..."
(Quintana, If...)

domingo, 15 de julho de 2018

UM SONHO ESSE NOSSO MUNDO

    
 
     Quer sentir-se amado? Quer fazer desabrochar o amor dentro de si? Quer perdoar, encher-se de paz e descobrir a beleza? Pois, afinal, "algo de belo é alegria para sempre"(A thing of beaty is a joy for ever...1)?
     Você pode ler algum livro místico, algo que levante sua alma. Que o oriente com certezas("...Quando somos capazes de relaxar e abandonar o irrelevante, o que nos resta é a essência nua_ a autêntica natureza de Buda interior..."2). Você pode entregar-se a uma religião e vivenciá-la entusiasticamente ("... Procura encontrar diariamente uns minutos dessa bendita solidão que tanta falta te faz para teres em andamento a vida interior...!) Ou, simplesmente, pode mergulhar no mundo sem disfarces da natureza.
 
     Nós todos pertencemos a este mundo e, pouco a pouco, com a passagem da vida, nos distanciamos dessa engrenagem perfeita. Iludimo-nos em mil cogitações e inúteis desejos sem fundamento.
     Aproveite os seus momentos de solitude e aprofunde seu auto conhecimento. Já lhes adianto que é uma conquista dificílima!
     A máscara do ego teima em se manter. Aliviarmo-nos das cascas que encobrem a nossa verdadeira natureza é algo estimulante, porém necessita de atenção, persistência e sinceridade.
     Há virtudes imprescindíveis que devíamos obter para alcançarmos, de uma certa maneira, a libertação. Sinceridade é uma delas. A sinceridade consigo mesmo.
 

      Os Degraus
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos_ onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...4
 

 
     OPS! 1- poeta John Keats
               2- Lama Surya Das
               3- Mons. Josemaria Escrivá
               4- poeta Mário Quintana


terça-feira, 10 de julho de 2018

"PENSO, LOGO EXISTO"

     "...
Que estúpido se não sabe que a infelicidade dos outros é deles.
...
Haver injustiça é como haver morte."
 
     Cedo ouvi atenta as palavras sempre coerentes e sensatas da jornalista Miriam Leitão, no jornal da TV, onde expôs seu comentário sobre as opiniões dos brasileiros no tema criado pela Globo: O Brasil que eu quero.
     Admirada estava com a lucidez do povo, de todos os rincões desses brasis tão amados... A diferença social  e a cultural não anulam a perspicácia e inteligência de todos,  em suas declarações sobre o nosso país. Afinal, já dizia o poeta: " Amar é pensar."
     Enfaticamente se pronunciam, sobre as mais diversas questões, cercados pelas belezas,  paisagens e História da nossa terra.
 

     Anunciam desejos de mudanças, em vários setores, especialmente na Educação e formação do povo.
     Tenho prestado atenção nos meus papos com os motoristas de táxis. Acontece mais ou menos a mesma revelação. Todos(ou, pelo menos, a maioria) refletem com absoluta maturidade sobre a atual situação política do país. Sabem se colocar, se expressar com sabedoria.     
     É por isso que acredito nesta afirmativa: "Todo ser humano é potencialmente filósofo."
      Há em cada um de nós,  acredito,  a semente para a vivência com compreensão e felicidade.
     Dito isto, relaxemos a mente, ante o poema de Alberto Caeiro (Fernando Pessoa):
 
  As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as cousas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
 
Algumas mal se veem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.
 
 
 
    
    
    

quarta-feira, 6 de junho de 2018

MUITO PRAZER, GILKA!

     Estou num box,  dessas lojinhas  com computadores, onde um amável jovem me instruiu para que eu avançasse na página. Sempre há um empecilho ou outro para confundir a gente...  Isto feito, cá estou, ansiosa pela escrita, noutra cidade, mais pacata do que a minha: Salvador! Cidade exaltada por Pancetti, o marujo pintor, que ficou extasiado ante a luz e a alegria que encontrara. Suas marinhas ganharam mais vida, após sua chegada por essas bandas.
    Pensava que a viagem transcorresse sem novidades, mas, qual o quê! Sempre  vem acompanhada de um fato  inusitado, algo que me faz refletir.
    Desta vez, sentei-me ao lado de uma senhorinha, aparentemente sossegada, como disposta a dormir em pleno voo. Nada disso! Logo  revelou-se uma falante de primeira.
    Começou devagarinho, como quem não quer nada e, devo confessar que eu a estimulava, a cada fato contado, com uma expressão de entusiasmo.
    No início do voo, chegou a dizer-me, simpatiquinha: " Olhe, agora, fique quietinha, pois gosto de orar quando levanta voo."
    Senti-me um tanto acanhada, já que falara pouco, coisas corriqueiras, o porquê daquela poltrona, o tempo, banalidades. Pensei então que talvez fosse rezando pela viagem...
     Enganei-me redondamente. Falou tanto que perdendo quase o fôlego, sentiu um calor anormal, sorria muito e segurou meu braço várias vezes, atropelando-me inúmeras falas, inibindo-me. Não. Já não tinha vez, já não era mais um diálogo, uma conversa, tornou-se um veemente monólogo!
    De origem simples, como ela mesma declarara, morando na roça, perdeu a mãe cedinho e teve uma boa madrasta que a estimulou a estudar, coisa de que o pai não fazia questão. 
    Formou-se no magistério, trabalhou, casou-se, teve filhos. Viúva, chegou a reatar com um antigo namorado que tinha o dom para a poesia,mimando-a com vários poemas e trovas, quase todos recitados entusiasticamente para mim! Um bom enredo para novela!
    Saí do avião exausta, já que, como dormira mal à noite , planejara relaxar durante a viagem. Mas, por outro lado, sempre é um privilégio encontrar alguém que confie na gente para se expressar, para se soltar, fazer revelações, confidenciar sentimentos. 
    Portanto, no final das contas, foi boa a nossa 'conversa' e percebo, a cada dia que passa da minha vida, como as pessoas sentem-se sozinhas! Quantos sentimentos guardados, quantas ideias prontas a se expandirem, quanto desassossego...
    Desejo que esta minha  amiga de infância realize ainda sonhos, tenha saúde  e o uso constante do cigarro não a leve antes do tempo certo... Muita vida pra você, Gilka!